“Ordeno que me passe o açúcar”, mandou o rei. Seu súdito sacudiu a cabeça em negação. O rei estava muito mais perto do açucareiro que ele. Ele levantou, e levou o açúcar ao rei, acompanhado de resmungos.

“Um cérebro do tamanho de um planeta, para quê?”, o súdito perguntou e ele mesmo respondeu, “Cumprir ordens ridículas.”

“Não são ridículas, Marvin”, advertiu o rei, “são ordens razoáveis.”

“Razoáveis…”, desprezou Marvin. Ele voltou ao seu lugar.

Estavam em uma mesa longa e abastecida de ponta a ponta: pães de todas as nações, bolões e bolinhos, frutonas e frutinhas e, principalmente, diversos conjuntos de chá — nenhum combinando, mas deixariam vovós com inveja (até lembrarem da quantidade de louça para lavar).

O banquete só perdia em tamanho para o manto de arminho do rei. Era muito para ele e seu súdito, Marvin. E Marvin era um robô; portanto, não comia. Pode-se dizer que o rei estava com o rei na barriga. Existia uma terceira figura ocupando um lugar. Ainda assim, muita fartura; tratava-se apenas uma lagarta de sete centímetros e meio de altura, que preferia seu longo narguilé a qualquer guloseima da mesa. Ela encarava o rei em silêncio por algum tempo. O próprio monarca não a tinha notado. A lagarta finalmente tirou o cachimbo da boca e perguntou:

“Quem é você?”

“Ah, mais um súdito!”, animou-se o rei, “O menor dos súditos! Menor até do que o menino que bocejava”, e bocejou, “ordeno que tome um chá comigo. Marvin não pode.”

“Você!”, disse a lagarta com desprezo, “Quem é você?”

Era uma pergunta fácil de se responder.

“Sou o rei. Vamos! Tome um chá comigo.”

“Por quê?”, retornou a lagarta.

“Ora, pois é meu súdito e ordenei que tomasse o chá!”, proferiu o rei, “Digo, você pode tomar chá, não pode?”

“Sim.”

“Então, tome.”

“Não.”

“Ordeno que tome.”

“Não vou.”

“Hum! Hum!”, vacilou o rei, “Pois… eu… ordeno que continue fumando seu narguilé e… tome o chá depois… se quiser.”

O rei estava um tanto embaraçado. O essencial para um rei é que sua autoridade seja respeitada, mas não poderia cobrar ordens incumpríveis de seus súditos; seria um mal rei se fizesse.

“Quem é você?”, perguntou a lagarta impaciente.

“Já disse, o rei.”, respondeu o rei no mesmo tom.

“Já há um rei aqui.”, explanou a lagarta, “Não se pode haver dois monarcas.”

“Por que não?”, questionou o rei na defensiva. Marvin balançou a cabeça — reviraria os olhos se tivesse pupila.

“Pois são monarcas!”, Marvin respondeu com rispidez.

O rei não percebeu que cometera uma gafe (mas não sabia qual).

“Onde está o chapeleiro?”, resolveu desconversar. Olhou para a lagarta para finalmente respondê-la, “Ele me convidou.”

O rei esperou a resposta por um longo tempo. Depois do suspense de três tragadas no narguilé, ela respondeu:

“Ele não virá.”

“Obviamente…”, disse Marvin.

“Como não?”, o rei sobressaltou-se na cadeira. “É o aniversário dele!”

Marvin suspirou nervoso (ainda que não possuisse aparelho respiratório nem sistema nervoso). A lagarta desceu da mesa e dirigiu-se para fora da casa.

“Exatamente”, a lagarta respondeu seca. Desceu da mesa e dirigiu-se ao portão do jardim, “explique-se como consegue”, perguntou a Marvin antes de partir.

“Não consigo…”, Marvin confessou, “é como falar com portas”.

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