(Continuação de “O Bestiário: Vespertino“)

Hora 9: Anima

O que sobrou?

— Pff, Sai! — Ótimo, minha boca cheia de pelo (e não por uma boa causa). — Quanto tempo eu dormi, gato?

Para onde as formigas foram? Só o gato, eu, os mortos e o silêncio. Os mortos e o silêncio. No parque não há túmulos. Não estou no parque. Por que?

— Você me trouxe aqui, bicho?

— Deus apareceu pra você também?

— Xô!

— O que tá olhando?

— Ei, gato… o que sobrou?

Você entende o que eu falo, não responde porque não quer. Gatos, sempre cheios de si, livres. Livres?

Liberdade é a perda de todas as esperanças, diz o cara do Clube da Luta. Ele era realmente louco. Liberdade é uma invenção dos loucos. Dizem que livre é uma nação não-escravizada. Gato, me diga, em que universo é possível uma nação livre, se nações se definem nações por seus limites? Lei, território, idioma, moeda, política, religião, trabalho. Não temos escolhas dentro deste sistema “livre”. Sabe qual a diferença entre acreditar na liberdade do homem e em Deus, gato? Deus, pelo menos, existe.

Por que estou no cemitério? Por que você está, bicho?

Morte.

— A morte liberta, gato? Você está vivo? Eu estou?

Jesus se libertou na cruz? Livrou-se do homem, da carne, do mundano. Onde estaria Jesus, se não tivesse sido morto, pergunto. “Onde Jesus estaria se ninguém tivesse escrito os evangelhos?”, Clube da Luta.

Jesus é eterno pelos evangelhos, assim como Quintana por sua poesia.

Não, não é a morte que liberta. Justamente o contrário. É imortalidade, não é, gato?

— Responde, caralho!

O gato comeu sua língua?

Quando a morte não interessa, não criamos nada além de asa; não queremos morar, queremos voar. Não queremos ter, nem que o ter nos tenha. Só voar como a louca Esperança de Quintana.

— Você é imortal, não é? Não conhece a morte, não a espera, não a teme… não sabe que morrerá e, então, só há vida em você. Jesus tornou-se imortal quando Deus o abandonou… Deus te abandonou. Deus me abandonou, gato.

Estamos na cruz? Somos imortais?

Deus nosso, por que nos desamparaste?

Hora 10: Luto

Se cemitério é um lugar de descanso, o que diabos os vivos vem fazer aqui? Os vivos chegam e, de brinde, trazem choro, tristeza, consolo. Se eu fosse dono dessa bagaça, colocaria um “não perturbe” no portão. Mas não dessa vez. Dez, onze, doze pessoas em volta de um caixão. E estavam em paz. E eu também.

Deveríamos?

A paz é o benefício dos mortos. Os vivos guerreiam por terras. A paz vale mais que qualquer porção de terra; enquanto vivos, só nos interessa a terra. Por que, então, há paz naquela família?

— Por que não haveria?

— Hein?! — caralho, que susto! Por um momento, achei que era o gato. Estou ficando louco; conhecia a voz. Lô. — O que faz aqui, Lô?

— Lô?

— … rena.

— Minha mãe parou de cantar.

Era a mãe dela no caixão.

— Sinto muito.

— Não sinta. Ela dizia que cantaria ao Senhor pela vida.

“Cantarei ao Senhor toda a minha vida; louvarei ao meu Deus enquanto eu viver.”, Salmo cento e sei lá quanto. Se não há mais para quem cantar, por que cantaria? Lorena não sofre, tampouco a família. É visível. O luto não tomou seus tempos. Quando alguém morre, não sentimos a dor porque a pessoa se foi, mas pela perda. E a perda é nossa. É egoísta. É humano.

A perda é uma fraqueza. Como seres auto-proclamados dominantes de tudo e todos, a perda é falta de controle, é uma falha de gestão. Não dominamos porra nenhuma e só lembramos disso na morte. Por isso é triste. É egoísta. É humano.

Somos tão importantes, que estamos no topo da cadeia alimentar, mudamos o mundo a nossa necessidade, somos a imagem e semelhança de Deus. Pois é, somos tão importantes, que Deus nos abandonou. Por isso não há luto em Lô. Não há luto na família. Não somos importantes. Não para Ele.

O que sobrou?

— Lô, o que Ele disse para sua mãe?

— “Você cantou à toa”.

— …

— …

— Lô…

Ela senta ao meu lado, encosta a cabeça no meu ombro. Deitamos na grama, abraçados. O gato corre, deixando-nos a sós. Ela faz o caminho de sua boca a minha.

Desvio a rota.

Hora 11: Cronos

— Você deveria estar com a sua família.

— Por que?

Uma pergunta sem ressentimento, nem

dissentimento. Sequer

sentimento.

Por que? A mais difícil das perguntas. E nunca a soube responder. Só não é mais minha Lolita. Não é mais labareda em minha carne — sem o avental e bonezinho da cafeteria, principalmente. Zero fetiche. Mas não posso lhe dizer isso. Ou posso? Nem o suicídio da mãe a afetou, afinal.

É, parece que Deus nos fez um belo favor: nos livrou das amarras que ele mesmo impôs ao criar-nos a sua imagem e semelhança. Podemos agora declarar: Deus está morto. Foi enterrado por nós, como Lô enterrará sua mãe. Sem luto. A humanidade pode, finalmente, seguir em frente. O tempo dos homens começa.

— Começa?

Como sabe o que eu…?

O tempo não parou dessa vez. Pela manhã era minha Lô, não mais que Lô, agora é apenas Deus.

“É difícil aceitar, mas ei… Nietzsche errou em tudo.”

Não. Disse que Deus estava morto quando ainda não estava, mas que o homem depende apenas de si? Acertou em cheio. Estamos aqui, sem Você. Imortais, livres, finalmente.

“Estão?”

Estamos.

Estamos?

Não estamos.

Fé e renúncia, afeto e desprezo, identidade, erro, o amor, a família, o aprendizado. A vida. A morte. Deus. Perdemos tudo que nos faz humanos. Este é o apocalipse, então? Não é o fim da raça humana, mas da humanidade. Da imagem e semelhança. Éramos o sal da Terra e, de repente, perdemos nosso gosto e de nada mais servimos.

— O Senhor, se me permite dizer, é um tremendo filho da puta!

Deus ri em deboche. Rio junto.

“Não se engane: vocês não são mais o sal que tempera a terra há muito tempo.”

— Porque Você não quis.

“Também. Mas vocês não quiseram primeiro. Eu os testei, e falharam. Testei novamente, e falharam. Fiz milhares de jogos, e perderam. Existe um limite de fichas, manja? Game over.”

— Você sabia que ia dar merda. Era só evitar, porra!

Lô levanta, passa a perna sobre meu quadril, bota as mãos em meu peito, seus olhos, há poucos centímetros dos meus, respiramos o mesmo ar. É como o casebre.

Por que?

Sussurra.

Desaparece.

Por que?

Hora 12: Ômega

Os ponteiros voltam a posição de quando Deus se foi. E, desta vez, a humanidade se vai.

Amém.

Um comentário sobre “O Bestiário: Noturno

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s