1 – O mar literário das Consolações

 

Conta-se que havia uma São Paulo lá embaixo. Era conhecida como Sampa, famosa pela Avenida das Paulistas. Suja, caótica, lotada, barulhenta, repleta de diversões e diversidades. Era como a São Paulo de cima. Se fosse do avesso. Esta história não foi pescada no ar. Estava no livro que Aline lia no ônibus até alguns minutos atrás, quando o fiscal de sorriso verde (Aline confundia as cores dos ditos populares, mas não fazia caso; tudo era cinza na São Paulo de cima) arrancou-o de sua mão e colocou outro, só de figuras e diálogos. “E de que serve um livro”, pensou ela, “somente com figuras e diálogos?”

A menina ficou observando a paisagem, sem paisagem para observar: a São Paulo de cima era quadrada e cinza em espaço, tempo, enredo e personagens. Nem seu apelido, Pauliceia, tinha o mesmo charme. “Palavra dura, sem sabor”, pensava Aline enquanto degustava, em murmúrios, o termo “Sampa”. Pela janela, seus olhos seguiram um homem que mirava seu relógio a cada três pernadas e esbaforava nas outras duas. O homem não a fascinava por sua pressa, mas pelas vestes: coelho, de terno azul. Os passos urgentes eram dados com patas brancas no lugar dos sapatos, pelos vazavam entre as pregas e botões do terno azul e, do topo da cabeça, subiam grandes orelhas felpudas. O homem-coelho entrou em uma estação de metrô que Aline nunca tinha visto: cores vibrantes, dentro e fora, destacando-se de todo o cinza.

Aline desceu apressada do ônibus e seguiu o coelho.


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