A sorte estava lançada. Não havia nenhum show de fogos, desfile ou declaração oficial para indicar o início da disputa; dedos foram erguidos e todos sabiam que havia começado. Em seguida, mãos recolhidas e um silêncio repleto de tensão e hostilidade tomou o palco da batalha. O clima perseverou por apenas um minuto. Para os espectadores no entorno, o mais longo da vida, enquanto para cinco dos seis combatentes preferiam que aquele minuto não acabasse tão cedo. Para a última, durou o que tinha de durar. Ela quebrara o silêncio com um berro estridente, semelhante a um gato no telhado tentando se dar bem com a siamesa da casa ao lado no meio da madrugada.

Apenas uma palavra que sequer era em português e alguns, quiçá ela própria, sabiam seu significado. Ainda assim, o urro incomodou. Os outros cinco largaram todas as interjeições que não diriam defronte seus pais e jogaram as canetas em punho para qualquer lado. O embate estava longe de acabar, porém. O próximo passo era julgamento e avaliação. E eis o pulo do gato (no telhado ou não): neste embate, o júri são os próprios competidores. Em sequência, cada um começa a pronunciar seus escritos. Lançavam aquela espreitadela desconfiada quando outro dizia ter pensado o mesmo, mas só murmuravam resmungos quando nem o que propor tinham.

– Cor: goiaba – expôs a soprano que esgoelara o “Stop!” minutos antes.

– Ei, goiaba não é cor, louca! – reivindicou de prontidão o mais exaltado dos moleques.

– É sim, Vitor! – rebateu a pequena num tom dengoso. Era sua provável arma secreta com seus pais quando, sem argumentos, queria abocanhar aquele bombom pré-almoço.

– Goiaba é fruta, Isa. Não cor. – acusou a guria de óculos. Seu truque não funcionaria no calor da peleja, considerando competidores da pior estirpe: crianças.

– Laranja também. – revidou Isa, abrindo um sorrisinho de canto de boca. Tirou sua carta da manga (de camisa, não a fruta… ou cor). – E não é cor, sabidona?!

– É sabichona. – corrigiu a outra.

– Os dois estão certos, Mayra… – Henrique falou com desprezo, o sabi-chão-e-dão da turma.

– B-bom, mas goiaba não é fruta. – desconversou Mayra encabulada.

– Claro que é, quatro-olhos. – mandou Vitor. Todos assentaram.

– … A-aliás, não é cor! Não é como laranja. A fruta tem esse nome por ser laranja.

Agora todos, menos Isa, concordaram, mas a guria não abriu mão:

– Então me digam qual a cor da goiaba?

– …

– Cor de… tijolo? – chutou Luís o garoto mais mirradinho.

– Tijolo? Bebeu, mano?

– Tijolo nem cor é, pô.

– E tijolo é laranja.

– Pois é. Mas não laranja, laranja… É tipo cor de abóbora.

Isa atirou seu dorso pra frente, fazendo questão de estar a vista de todos. Não desperdiçaria a maré a favor, encontrara uma brecha ali para somar seus dez pontinhos:

– Ah, abóbora é cor e goiaba não?!

Mais uma vez o silêncio temporário tomou as mesas.

– OK. Vamos deixar passar dessa vez… – rendeu-se Henrique à contragosto próprio e dos outros. – Cor com “g”: gelo.

– Gelo, cor?! Tá de sacanagem, né?! – protestou Vitor.

 

O debate continuou por toda a aula-vaga, o sinal soou e o vencedor nunca foi definido. Apesar dos conflitos e indecisões, Stop era um jogo e tanto. Saudosos – e offline – noventas!

 

– Uau! Vamos jogar, papai? – pediu Sofia, minha filha. Apoiada pelos olhares e interjeições de seu irmão e outros quatro amiguinhos que sentavam no carpete da minha sala.

Esqueci por uns momentos que estava acompanhado, perdido em minha nostalgia. Ao chegar do trabalho, havia me deparado com a trupe toda esparramada no chão. Todos ali, mas em mundos separados pelos smartphones a um palmo do nariz que dominavam seus sentidos e consciências. Nenhuma comunicação ou interação tangível, sem retórica, pró-atividade, sequer qualquer exercício de memória e imaginação. Pensei em tirá-los um tanto daquele transe e comentei do Stop!. Fiquei horrorizado pela minha velhice, quando notei meia dúzia de carinhas de indagação.

– Acho que não seria possível jogar Stop! hoje, querida…

– Por que não, papai? Vamos, vamos?

– Bom… tá, vou ensiná-los, OK? Peguem um papel e…

– Não é cor! – interrompeu-me uma das coleguinhas de Sofia. Mirava um phablet em sua mão, que era, literalmente, maior que seu antebraço.

– O que disse, Natália?!

– Goiaba. Não é cor. – ela inicia a leitura no seu troção touch screen – “Goiaba é a fruta da goiabeira, árvore originária da América tropical. Simbolicamente, também refere-se a uma cor por uma decisão mercadológica para facilitar a compreensão do pigmento rosa coral. Uma tonalidade rosada da cor coral, trata-se de um tom opaco e frio de rosa, cuja cor complementar é o verde-azulado. Goiaba não é cor.”

– Tá… onde você leu isso, Nati?

– Na internet, ué. Eu perguntei pros meus amigos onlines.

– Não é isso… você entendeu o que leu?

– Sim. Goiaba não é cor.

– É… bom, não vai funcionar jogar Stop! com o celular, então vamos deslig–

Meia dúzia de bipes combinados disparam em conjunto. Outra meia dúzia, agora de cabeças, abaixam simultaneamente e logo perdem-se no meio de algum vídeo novo de um joguito de point-and-click ou algo assim. Aquelas notificações foram um grito de Stop! da infância viva, cor goiaba.

 

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