Três quintas-feiras de noites ensolaradas. O ponteiro menor mira o número onze, o maior caiu. Não fazia diferença; o que Alexis ansiava saber, o relógio não responderia: manhã ou noite?

“Que sono…”, balbuciou Alexis pela milésima vez. Seu estado era quase vegetativo – raiz ressecada, caule quebradiço, folhas caídas e frutos apodrecidos. Pedi, com meus créditos, para Esther visitar mais cedo com seu homunculus o data center da universidade. Tanto o scanning com reconhecimento facial quanto o registro biométrico dos acessos confirmaram meu receio: Alexis deixara o prédio pela última vez há três semanas. Por que? Ele não me disse. Mas o que mais me intrigou foi a próxima informação de Esther: ele retornara na mesma madrugada, com pouco mais de uma hora após sua saída.

“Vá para casa, professor. Precisa dormir.”

“Não posso… Ainda é dia.”, era seu único argumento independente da minha proposta. Minha próxima tarefa não gratuita a Esther era acessar o cérebro de Alexis. Sua mente estava desconectada de qualquer rede, ela disse. Meu conhecimento sobre neuro-espaço não deve ser muito mais vasto que o seu, mas posso acreditar que Alexis está desconectado até localmente, já que sua boca era gelatina na tentativa de formar palavras.

“Devolva minha grana, então.”, intimei Esther. Nunca fui com a cara dessa mulher. Era a única que não conseguia negociar em meus termos, ao mesmo tempo outro tinha de fazer o trabalho sujo, quando o meu não era o suficiente.

Ela conseguia hackear o neuro-espaço, bem como qualquer sistema conectado com seu homunculus. Se não está familiarizado com o termo, devo lhe dizer que também não estou. Ela já me explicou. De nada adiantou. São como avatares, eu diria. E ela diria: “Homunculus não são avatares. São mais, são todas as suas conexões com o neuro-espaço e como você é representado lá. Avatares interagem em uma rede. Entenda os homunculi como microrredes individuais que trocam informações selecionadas entre si e, assim, dividem sua compreensão do espaço. Uma vez invadido o homunculus alheio, posso ter acesso a qualquer informação de seu homunculus e entender por completo o espaço alheio, além de conseguir fazer modificações imperceptíveis, obter informações individuais e, até mesmo, desligar o sistema.”

E mais blá blá blá do qual não lembro, porque dormi. Ela era eficiente nesse troço, mas era chata a dar com o pau. Ben, outro aluno, jurava que o hálito de Esther tinha um tanto de mentol, mas uma vez pôde sentir um odor sonífero. Não levo Ben a sério, mas ainda não descarto a possibilidade dela fazer suas tramóias no neuro-espaço e nos apagar só para provar seu ponto. Mas fico com: ela só é um pé no saco mesmo.

“Alexis, você precisa descansar.”

“Não posso… Ainda é dia.”, repetiu o professor.

“Será sempre dia. Há dois sóis no céu.”, Ben levantou a bola. Ele não acredita nisso, devo suspeitar. Como não deve ter sentido sonífero coisa alguma no hálito de Esther. A pesquisa de Ben é sobre o quanto as pessoas pagam, em tempo, por conversas fiadas e conjecturas sem fundamentos a partir delas. E sem direito a reembolso. A observação é uma arma mais poderosa que a discussão, é o que defende. É um fã assumido de Sir Conan Doyle, como sou de Marquês de Sade, diga-se. Não perdia a oportunidade de espalhar a pólvora e admirar o incêndio se alastrar. Em uma ocasião, fez seus colegas, eu inclusive, debaterem sobre seu nome. Era realmente Ben? Benjamin, Benício, Bento? O único parâmetro que revelara foi que, por mero acaso, era associável a um de seus aspectos que todos conhecíamos. A questão se tornou um debate diplomático em pouco tempo. Após muitos minutos que não voltarão, um dos participantes do debate – o qual, percebi apenas num passado recente, não era um pesquisador, mas um ator fazendo papel de faísca para a pólvora – sugeriu, Bruno. Mais uma porção de tempo gasto até desconsiderarmos essa possibilidade. O contra-argumento, porém, não foi o fato de Bruno não ter quaisquer relações com Ben, mas de Bruno referir-se a cor marrom e o rapaz em voga, por sua vez, era rúbeo. A discussão foi inconclusiva. Apenas negociamos como amadores nosso tempo. Era elementar, glorificou Ben, degustando seu momento sherlockiano: o aspecto comum a todos no debate sobre ele, Ben, era seu nome: Ben.

“Se tivéssemos dois sóis, poderíamos vê-los.”, apressei-me em cortar o assunto. Ben semeou a paranóia do tempo em minha mente. Decidi economizá-lo e não servir mais de rato para seus experimentos. O ator-faísca não pretendia deixar de fazer seu papel, entretanto.

“Não se um ofusca o outro. O Sol número um aparece de dia e o segundo tomou a noite. Estão diretamente opostos!”, ele riscou o fósforo. Valeria a pena deixá-lo inflamar a sala?

“Em algum momento veríamos os dois.”, Lucca me antecipou, matando o argumento do Faísca. Obrigado, querida. “Só há uma explicação: o planeta parou.”

Puta que pariu.

“Não fale bobagens!”, repreendi a moça; labareda alastrada. “Existe uma Lei chamada inércia. Se o planeta parasse, tudo aqui iria voar pela tangente e voltaria esbagaçado.”, parei. Respirei. Ela não se dedicaria para entender e, portanto, eu não faria o mesmo para explicar. Para Lucca, a Louca, a física é conspiração; o esoterismo, absoluto. Bom, a culpa não era dela. Não é por estupidez, quero dizer.

“Não estou falando do seu planeta ou do meu.”, Lucca, sem perceber, cerrou seu olhar e sobrepôs seu lábio inferior ao superior. Era infantil, mas devo dizer que sexy também. “O planeta de Alexis!”, enfatizou. Estava obstinada em me fazer notar seu mau-humor diante meu desdém pelo seu argumento, mas falhou. Mordi meus lábios e lancei um olhar direto a ela. Contra-ataquei com as mesmas armas, mas mudei a direção do tiro – e sei que venci o duelo. Ela desviou os olhos num instante, mesmo sem referencial para onde olhar.

Entendo a frustração da guria. Lucca, a Louca, era constantemente desacreditada entre nós dada sua pesquisa: Sumancia. Você não sabe o que é. Nem eu. Não é um papo técnico letárgico como o de Esther, mas eu definiria o episódio em que ela me explica o que diabos é isso como: o maior bolo de asneiras já provido por uma boca tão linda.

“Está vendo essa parede?”, indagou Lucca, após me conduzir a uma parede em uma sala vazia branca, com fundos infinitos em todos os ângulos. Como se estivéssemos dentro de um dado cúbico – ou em uma reprodução de mente vazia, acredito ser sua intenção. Podem imaginar, então, a amplitude de minha intolerância diante daquela pergunta a partir do pressuposto que ela sabia que só havia uma resposta a pergunta. Não respondi. Idos alguns segundos, ela insistiu na pergunta.

“Vejo um macaco-prego cantando Love Me Tender.”, respondi.

“De topete?”

“É claro que estou vendo a parede, Lucca!”

“Tem certeza?”

Não respondi. Ela insistiu.

“É óbvio!”

“Eu discordo de você.”, Lucca saboreava esse momento. Não era sempre que alguém aceitava seu convite à discussão sobre Sumancia. Claro, eu não estava ali de graça. “Por muitos motivos isso não é uma parede, mas dentre eles ressalto um: não estamos na vertical.”

“Eu diria que estamos. A gravidade também.”

“Aponte-me, então, onde está o centro do universo.”

Não apontei, é claro. Não tinha parâmetros naquele momento para certificar.

“E da Terra?”, permaneci imóvel. “Do prédio?”. Não sabia. Então, como eu afirmava que aquela parede estava na vertical? Meu ponto de referência costuma ser o centro de gravidade, para baixo, respondi-me em seguida. Usar apenas a perspectiva do lugar-comum ao tentar entender o mundo, entretanto, é abraçar o fracasso de nosso trabalho. Ela estende seu braço e mira seu indicador em uma direção aleatória.

“Essa é a direção. Dos três centros.”

“Como sabe?”

“Qual a cor?”, ela perguntou se referindo novamente a parede que não era parede, mas na verdade era. Ou não.

“Branca. Só há branco nesta sala.”

“Discordo.”, ela repetiu sua palavra favorita. “Nesta sala não há perspectivas ou referências relativas. Como podemos definir cores? Quando entra aqui, você só possui as suas inferências prévias sobre sua compreensão de mundo que trouxe lá de fora. Seu universo. Aquele em que você está na vertical e enxerga uma parede branca à sua frente. Conseguir distinguir essas inferências e separar as verdades é a Sumancia. Ao dominá-la, você pode associar a sua compreensão de mundo a símbolos e transformar símbolos em fatores. Fatores são como poderes, mas são incompreensíveis aos olhos de outrém. Eles funcionam dentro de seu universo e se reproduzem de outra forma em universos terceiros. Há Sumancers que falam com os animais, viajam no tempo e até são imortais. Ao mesmo tempo, a falta do domínio da Sumancia pode ser cruciante: alguns ficaram abandonados na imensidão do espaço, vagando no vácuo, um está sendo pisoteado por cavalos em meio a uma guerra por décadas, alguns colapsaram seus universos. Tudo que precisa é de uma escolha. Uma má escolha.”

Entendeu? Eu menos. E no momento seguinte estávamos na horizontal. Não porque percebi a sala de outra maneira, mas porque calei a Louca com um beijo e nos jogamos no chão, ou parede ou teto, não importava. Por vezes, vender o tempo em asneiras tem suas recompensas, Ben. Além disso, Alexis dava voz a pesquisa de Lucca, então não desacredito a Sumancia por completo. E é com essa magia que Lucca sustenta sua tese sobre a insônia de Alexis. O planeta dele parou e é dia sempre. Uma má escolha feita há três semanas. Por mais ceticismo que tenha sobre a Sumancia, não tenho como questionar; para mim, há algumas horas era noite e estava em minha cama (com Lucca sobre mim). Dentre nós, somente para Alexis o céu permanece ensolarado nos últimos vinte dias.

Você deve estar se perguntando o que diabos estamos pesquisando em um grupo que mistura internet, conversa fiada e magia. Envolvem coisas ainda mais interessantes, como orgasmos. O que essas pesquisas têm em comum são as pessoas que as fazem. Explico: vivemos em um mundo absoluto em que o prazer foi banido, a arte é criminal e o conhecimento é restrito. Não há identidade ou liberdade. Alexis, há algumas décadas, ganhou a atenção de algumas personae non gratae por expôr sua pesquisa sobre construção de mundos. Você e eu criamos mundos, versões do mundo absoluto, cada um com o seu; são nossas percepções, ciclos sociais, valores e experiências. Agora, imagine que seu mundo relativo possa ser independente do absoluto, conectar-se com outros relativos e você possa ser livre, viver sua utopia, seu paraíso. Como? É onde entram nossas pesquisas. Por quê? Digamos que, para quem somos, o peso do mundo absoluto é insuportável. Principalmente sobre Alexis.

“Vá para casa, professor. Precisa dormir.”

“Não posso… Ainda é dia.”, a resposta dele continua morna.

“Eu o acompanho. Venha.”, ofereço-me estendendo o braço em apoio.

“Não posso. Preciso trabalhar, preciso…”

“Alexis, você pode! Venha.”, coloco energias na voz. De uma imperatriz, de uma blogueira; a voz de uma dominatrix. Era desta forma que ele me dava ouvido em suas últimas noites. Alexis, em movimentos prolongados, levantou-se e acatou meu convite. Os demais doutorandos me lançaram um olhar de aprovação. Precisávamos entender o que acontecia com Alexis. Levei-o a uma sala vazia, tranquei a porta.

Se sua pergunta é se transei com meu professor, respondo: sim. E com Lucca. E com Ben. E com toda a equipe – menos Esther. Mas antes de me julgar, eu explico. Faço isso por dois motivos: é bom. Muito bom. Recomendo. O segundo, é minha pesquisa de campo. No mundo absoluto, a volúpia foi extinta. Literalmente. Excluída dos dicionários, dos livros didáticos, dos mitos romanos. Para os excelentíssimos, sexo é fraqueza. A armadura é o terno, o exército é a fortuna, a fortaleza é a mansão, o arsenal é a assinatura. Tire todos os ornamentos e tudo que se vê são seus defeitos, o quanto se é pequeno (quando não “pequeno”). No sexo somos quem somos, somos o que não nos é permitido, somos nosso mundo. O orgasmo revela nossa alma, nossa lama. É aqui onde conectamos nossos relativos e podemos compreender o outro. Não é fácil, entretanto. É um momento egoísta; um orgasmo é o réveillon em Copacabana do seu mundo e você não quer perder. Ao mesmo tempo, você está sendo convidado a visitar outro mundo. E foi assim que conheci o mundo de Alexis.

Enquanto nos servíamos e bebíamos, aceitei seu convite, mas dessa vez, ela não estava lá. Naquele momento, entendi porque seu planeta parou e porque não havia mais noites para ele. Uma escolha, três semanas atrás. Nossa próxima parada só poderia ser uma. Venha, decretei uma vez mais. Como um cão em uma coleira o guiei para mim. Revelei-me e o fiz entrar em meu mundo. Era noite, lua cheia.

“Lua… como senti sua falta.”, Alexis submergiu em próprias lágrimas e saliva. Seu espírito era uma barricada sem estrutura para tanta água acumulada em vinte dias que acabara de transbordar.

“Como sente falta da lua, se ela não te pertence, Alexis?”, ele deixa a lua e perde seu olhar no vazio do horizonte.

“Por muito tempo ela foi minha…”

Não era vazio. Mirava um menina sentada no balanço do playground. Era ela. Enquanto as demais crianças interagiam entre si pelos mais variados tipos de jogos e recreações, aquela menina comutava seu brilho com a lua. Um livro na mão, o favorito de Alexis. “Estrangeiros do mundo comum”, escrito por ele. Sobre uma garota que queria a Lua, a figura máxima feminina, personificada em deusas famosas por sua beleza, encanto, fartura. Responsáveis por trazer glamour ante o desânimo, prosperidade sobre as trevas, prazer aos homens. A rainha do baile. Artarte e Ishtar, Jaci e Isis, Lilith e Selene. Alexis queria a Lua. E teve. E foi.

Para onde ela foi, Alexis?

“Eu… eu conheço você.”, disse Alexis ao se aproximar da jovem. Não haviam certezas em sua voz. Ainda assim, ele afirmou.

“Conhece sim!”, respondeu a criança com aquele entusiasmo que só uma criança de sete ou oito que lê e escreve livros mitológicos sobre deusas lunares consegue expressar. Caso não conheça essa sensação, sinto por você. E por mim. Ao vê-la, sinto uma estranha dualidade entre a leveza de presenciá-la e a angústia por não sentí-la. “Mas eu não te conheço, moço!”, ela completou.

“Não? Eu me chamo–”

“Alexis!”, interrompeu a criança sem rodeios. Alexis recuou em seus ombros. “Seu nome eu sei, moço! O que não sei é quem é você.”

“Como sabe meu nome?”

“Porque é seu único nome.”

Alexis com seu um metro e setenta e tantos era pequeno diante da criança que o desarmou. Ela era a lua cheia. Ele, apenas um homem em arrependimentos.

“Diga-me, como me conhece?”, sua voz mal foi projetada. Mas ela ouviu e respondeu impaciente.

“Não o conheço. Já disse, moço!”

Alexis era um rio em estiagem. Seu mundo estava em ruínas e essa conversa secou a pouca energia que lhe restava; estava prestes a sumir. Corri, tomei-o em meus braços.

“Alexia.”, eu disse à garota no balanço. “Ele precisa de você.”

“Eu sei.”, a menina respondeu, finalmente desgrudando os olhos do brilho lunar. “Mas ele não me quer mais.”

Mulheres, a Lua; belas, sexys, artísticas. Homens, o Sol; poderosos, líderes, centros. O mundo comum sempre foi retratado dessa forma. Quando prazer e sonhos não são mais aceitos, o que resta para a Lua? Alexis nascera com Alexia em seu mundo. Queria ter e ser Alexia. Queria mais: ser magnânimo como o Sol, ser essencial como a Lua. No mundo absoluto a distância entre o Sol e a Lua é muito grande, porém. Antes de chegar, Alexis desistiu. O peso do mundo o esmagou.

Eu sabia o que viria a seguir, mas deixei que Alexia falasse.

“Há três semanas, Alexis escolheu.”, disse Alexia olhando para o homem prestes a sucumbir, dessa vez sem entusiasmo, sem brilhantismo, sem Lua. “Decidiu ser apenas o Sol.”

“Alexis, o que você fez?”, novamente perguntei sabendo a resposta. E que ela não viria da boca dele. “Era seu universo…”

Alexia sumia em lágrimas. Ambos não pertenciam mais ao mundo, meu mundo. Agarrei-o o mais forte que pude, mas como segurar o que não está mais em suas mãos?

Alexia.
Nasceu Alexis.
Era Selene.
Quis Hélio.
Morreu Ícaro.

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