(Continuação de “O Bestiário: Matutino“)

Hora 5: Ágape

Até mais.

É sério? Ela simplesmente vai? Bom, nem quero que fique. Meu texto me espera. Meu café também. Deve ter esfriado, mas por um bom motivo. Foda!, literalmente. É gozado, nunca valorizei o sexo casual. Sem paixão, apenas me sinto compartilhando um momento egocêntrico de auto-prazer que não deveria ser compartilhado; um exibicionismo auto-vangloriado que não deveria ser exibido. Como a internet. Usei-a errada esse tempo todo. Ó meu Deus! (tenho plenos direitos a essa expressão agora), sou um conservador! Era, visto a última ida ao banheiro. Graças a Deus! (essa também).

Um pedaço de carne para amaciar, um recipiente para me derramar. Apenas isso e, ainda assim, o prazer foi superlativo – e recíproco. Fiz o mesmo papel. Duas personagens, dois pontos de vistas, mesmo enredo. Dois idiotas com suas marionetes. Duas marionetes com seus idiotas. Nada integrados. Condicionei-me a crer e ambicionar o amor divino. E nunca havia me questionado o por quê.

Até agora.

Ele aprontou mais uma das Suas.

Houve uma época em que as pessoas podiam olhar para o céu repleto de estrelas e livre de poluentes, divagar sobre a vida, atribuir fatores desconhecidos a Deuses (e estavam certos, afinal) e ganharam notoriedade por toda a história ocidental. Alicerces do conhecimento, ciência, arte e cultura. Sou fã – e invejo – os filósofos gregos. O suprassumo da boemia. Faziam o que estou fazendo agora, mas vejo apenas essas LED’s de baixa luminosidade no forro de madeira artificial. A abóbada celeste do século XXI. E achamos que evoluímos.

Os gregos compreenderam a soberba humana. E Deus. Criaram três palavras para o amor. Eros, o amor platônico, do desejo, da libido. A ambição em possuir; perde a graça quando temos, porém. Amor sobre poder e aceitação. Repulsa ao que se já tem. Tipo casamento. Philia, o amor cortês, bem relacionado. Harmonia e alegria como palavras de ordem. E quando a alegria do momento se vai, foda-se o outro. Tipo casamento. E ágape, o amor divino. Incondicional, o amor da empatia, de Cristo, aquele que morreu por nós. Tipo casamento, em contos de fadas. Ágape é impraticável por nós, é próprio dos Deuses e não de Seus fã-clubes.

Pura hipocrisia.

Se com toda a poesia do cosmos os gregos definiram o amor como a essência do egoísmo humano, como discordarei sob a poeira de um teto rebaixado? Meu livro. Ágape move o protagonista. Ótimo, já sei seu nome; já sei o meu: Dom Quixote de La Mancha. Utópico ou louco (qual a diferença?). Sempre fui um entusiasta do ágape, buscava-o. E mais, nunca me questionei o por quê.

Até agora.

E sei exatamente o motivo.

Pura hipocrisia.

Hora 6: Liberta

Cinco horas, um apocalipse, um café, um parágrafo, uma transa.

Não é exatamente o que eu chamaria de um dia ruim, mas fora do planejado. Queria, precisava escrever. Não quero mais. Não sei se preciso. Sempre valorizei a eficiência, o esforço, a produção, o poder. Acreditava na real meritocracia – e não em Deus, santa inocência! – e agora nada posso, nada quero. Precisava de Deus para acreditar no meu trabalho? Sua força era necessária para perseverarmos, como escreveu Paulo? Ele apenas quer provar um ponto. Maldito seja! Posso não produzir. É minha liberdade, meu poder…

Auto-engano?

Não me importa. Procrastinarei e farei como um profissional: Twitter.

O Papa abdicou?! O presidente renunciou! Prenderam o padrinho de Napoli e o ISIS acabou? As podridões saindo aos quatro ventos dos governos, das indústrias, das mídias. Todos os poderosos estão abandonando de seu reinado! O mais bizarro: ninguém está reverberando isso. Por que?

Por que? A humanidade se resume em uma busca constante pelo poder. Por que? Seja dinheiro, seja curtidas, as pessoas querem seus louros. Por que? Loucura? Deslumbre? Liberdade?

Liberdade?

Liberdade. O poder é associado a capacidade, direito, autoridade, arbítrio, liberdade. Dizem que posso ir e vir, posso ter. Eu tenho ou o ter que me tem? E quem são estes que dizem? Posso dizer o contrário? Posso buscar a salvação, desde que me submeta aos dogmas da religião. Posso votar, em candidatos pré-estabelecidos e que não me representam. Sociedade, cultura, economia, tudo. Preciso me acorrentar a moldes padronizados, antes de pensar em poder. O que posso, afinal?

Poder e liberdade, cara e coroa, humano e exato. Próximos e antagônicos. “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”, também escreveu Paulo aos Coríntios. Esta carta… preciso ir!

A avenida está mais morna que a cafeteria. Meritocracia. Abríamos mão da liberdade por poder. Por sifras, cagávamos para a licitude e moral. O que me convém, afinal?

– O QUE TE CONVÉM?

– …

– Responde, caralho! Por que você trabalha? Por que quer ser respeitado? Por que busca poder? Por que faz o que faz da maneira que faz? Por que? Por que?

– O… que?

Filho da puta inútil. Poder, liberdade burra. Pensa que seu Rolex e Armani tem controle sobre a natureza, sobre todos, tudo, mas são apenas suas correntes. Maldito seja Ele! Deu-nos o paraíso, mas não podíamos comer a maçã. Onde está a liberdade? Agora não há mais maçãs, sequer a serpente. Somos mornos, inúteis, despropósitos. Três adjetivos. Não há salvação para os mornos no Apocalipse.

Humanos. Ainda somos?

Onde estão minhas chaves? Não consigo respirar… pare de tremer! Não consigo enxergar… preciso da minha agulha.

As chaves…

Preciso…

Hora 7: Congregação

Bebê, você tá bem? Acorde!

Essa voz… suave, limpa, preocupada. Três. O que faz aqui? É ele mesmo. Que merda, esqueci que dormiu em casa. Arrependo-me de abrir os olhos. Meu “namorado”. Ele namora comigo, o contrário não. Pensando agora, ele foi se mudando pra cá. Dissimulado, solicito, passivo. Como na cama. E eu deixei, que idiota! É lindo, polido, carismático. Sempre três. Um “Deus”, posso dizer. Perfeito como Ele, pelo menos. Não gosto de Deus, porém.

Pior. Deus ainda me proporciona esse dia. Debate, reflexão, instinto, barbárie, desespero. Ele não. Nem na cama, nem fora. O oposto do que aconteceu na cafeteria com ela. Ele é pra casar. Uma alcunha escrota, mas ele é.

Eu pensava em casar… Por que?

– Minha agulha.

– Querido, você tem que par-

– A agulha, caralho!

Finalmente. Tem que xingar pra ir… Mulher de malandro. Outra alcunha escrota, mas ele é. Preciso mais que você suma da minha frente do que da heroína.

Por que?

Casamento, família, congregações. Medo da morte solitária. Uma competição egoísta para ver quem vai primeiro. Só perante o fim, vem o arrependimento de ter vivido a vida de outrem. Há conflito pelo fim das tradições e conservações buscando tradições e conservações. Casamento gay, direito ao voto, cotas raciais, lideranças femininas. Cortar as cabeças da Hidra de Lerna sem cicatrizar a ferida, não terá outro efeito, além de torná-la mais perigosa. Continuamos lutando por mais poder, menos liberdade. Por que não almejamos a alternativa?

Aliás, há uma alternativa?

Família significa o conjunto de propriedades de alguém. Queremos poder. E podemos, desde que vendamos nossa liberdade. Temos o que nos tem. Somos famuli, servos de nossos escravos, senhores de nossos donos. Comunismo capitalista.

O Estado já foi pro saco e desprezamos toda e qualquer civilidade social, mas ainda cogitamos a família. Aceitamos a nossa inutilidade. Ou juntamos os panos para mascarar a incompetência de consertar – ou destruir de vez – as congregações além.

Por que?

A agulha, finalmente. Ah!, o segundo melhor orgasmo do dia. O parque: a massagem da grama nas minhas costas, o cheiro verde úmido, a sinfonia da brisa leve e do balanço das folhas, a calidez macia da roupa recém-passada, o tom laranja através das minhas pálpebras.

– Querido, você estava tão bem sem isso…

Puta que pariu! Com ele aqui não sairei de casa sem sair de casa. Por que ainda está aqui?

– Vai embora!

– Mas…

– Vaza, caralho! Quando voltar, quero você fora.

Vou ao parque.

Hora 8: Naturae

As formigas não sabem massagear minhas costas, apenas causam coceira. O aroma não é como eu imaginei; os decompositores devem estar trabalhando. Os zumbidos dos insetos são nada sinfônicos, o tempo nublado e a ventania entre as árvores já me indicam um resfriado. Saudade da minha agulha. Ainda assim, ele não está aqui. Nem ninguém. Posso me acostumar a isso. A natureza e eu. Sem julgadores, jogadores ou subjugadores.

Cultura. Tem de sobra. Vivem em coletividade com o alimento. Criam casas e ambientes artificiais ideais para o plantio, cuidado e multiplicação da produção; projetam vias organizadas para coleta e transporte de recursos necessário; a divisão de trabalho no processo tem total eficácia; a coleta e distribuição tornam esses recursos autossustentáveis e capaz de alimentar centenas de milhares por gerações.

Malditas formigas!

Não consigo tirá-las das minhas costas. Elas me incomodam, odeio-as, mas quem sou eu? Elas não ligam. Estou atrapalhando o caminho delas também, apenas querem chegar no seu criadouros de cogumelos. Odeio essas formigas. Elas coçam, mas não é isso. Elas são úteis, cultas, importantes. Eu não. Nós não. Deus nos fez a Sua imagem e semelhança. Era para dominarmos, mas somos inúteis. Qual o truque?

Temos a necessidade de domar outras espécies. Foi a ordem de Deus. Fomos além. Dominamos tudo, dominamos nós mesmos. Tudo que buscamos é uma desculpa para fazê-lo. “Somos diferentes, superiores. Se animais, somos sociais.” Socializar é seguir. Somos animais perseguidores. Queremos ser seguidos, mas apenas nos seguimos, não acompanhamos. Redes sociais; o ciclo de seguidores. Um falso poder com um verdadeiro aprisionamento. Narcisismo. Onanismo. A natureza é poderosa porque é livre. Ela coexiste e coevolui. A verdadeira criação.

A natureza independe de Deus. E nós? E eu? O que sou sem Ele? Não somos natureza. Somos diferentes, inferiores. Se animais, somos seguidores. Sua imagem e semelhança; o poder, a criação, a esperança, a presença, ciência e potência.

Somos sociais. Somos Deus. Deus nada mais é. Quem seguir?

O que sobrou?


Continua em “O Bestiário: Noturno

3 comentários sobre “O Bestiário: Vespertino

  1. Conto bastante agradável. Mas ao seu ponto de vista ao escrever este conto, o que lhe chamou a atenção em ter que citar tantas vezes Deus? Você acredita nele? Vivemos em um mundo onde tal liberdade ainda é questionada, como citou na parte da maçã! Mas você se sente preso e só consegue se expressar em palavras ao invés de ações?

    E porque após tantas tribulações em um relacionamento, chegou a pré ideia do casamento?

    aguardo respostas. 👏👏👏👏

    Curtir

  2. Pingback: 20 Contos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s