Dois cafés, por favor.

Não há ninguém mais.
Não havia ontem, nem no dia anterior.
Por que dois?

Virá, sempre.

Como nunca noto?

Nunca olhou o suficiente.

Mas o segundo café nunca é tomado.

Por que não?

Quem vem?

Diga-me quem vem, Luna.

Quem?

Arte.

Arte?
Quem é?

Todos.
Os cafés.
Ou costumava-se ser.
Quando cores além-cinza haviam neste mundo.

Cores?
O mundo deles não é natureza para se colorar.

Por isso o costumavam maquiar.
Aliviam-se da culpa de destruir os outros mundos.
O nosso.

Loucura, Solaris.
Eles não fazem caso de nós.
Não há culpa neles.

Luna, por que conversamos?

Como?

Não papeia com qualquer outro aqui.

Fascínio.
Dois cafés, senta-se, toma o primeiro, levanta-se e vai-se.
Sempre.
Eles apenas bebem o que os expulsam desse mundo para um que permitam me ter.
Não me deseja assim.

Desejo.
Todo dia.
A todo momento.
Agora.
Enquanto prepara as duas xícaras de café.
E deseja-me também.

Solaris… Eu…

Sabes o que é arte, Luna?

Quantas xícaras de café prepara por dia?

Não muitas.
Apenas duas, digo.

Há quanto tempo?

Três ou quatro anos…

Três ou quatro?

Quatro.
Cinco meses, três semanas.

Quantos desses cafés são iguais?

Todos.

Nenhum.

Nenhum?

Arte.
Não importa quantas xícaras preparar, nunca serão iguais.
Pois os grãos negros que seleciona para moer nunca são os mesmos.
Tampouco os cristalinos do açúcar.
Os borbulhos da água fervente que coloca no final não são os mesmos.
Não é igual, eu não sou mais, nenhum mundo é.

Nada é.
Arte é tudo…

Está duplamente enganada.
Arte não é tudo, é muito mais.
E nem tudo muda, só o que é arte.

O que não é arte, então?

O tudo, o nada.
O universo, o umbigo.
Todos e ninguém.
O preto, o branco, o cinza.
A arte é cada, não o indistinto.
Expressão, criação, alma.
Símbolo de amor eterno, infindáveis primaveras.
Um paradoxo não calculado, que valia ser vivido.
A ressaca jamais batia, pelo menos.

O que significa, Solaris?

Significava.
Era singularidade.
Não mais.
A vivacidade e o interesse foram apagados e pintados de cinza.
Foram contidos em falsa liberdade.
Eles assinaram o próprio réquiem, mascarado pelo alheio.
Tudo feito sob aplausos e ovações.

Vidas longas, mas pequenas.
Liberdade engaiolada, neutralidade morna.
A primavera deles nunca chegará.
Sei disso, eles não.
Mas o quanto isso me importa, Solaris?

Diga-me quem vem, Luna.

Quem?
Ninguém.

Por que faz dois cafés se ninguém tomará o segundo?

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