Grandes ondas. O perigo é a iminência e o temor, consequência. O que vem é não conhecido. A vida ali surge, mas a fartura de um segundo, derruba o que fora construído, coloca pontos finais nas histórias iniciadas e deixa apenas ruínas para contá-las. Perdas e danos fluem, crescem, perseveram. Não há mais conflitos (ou razão para tê-los); se foi ou sobrou, não importa. Unem o diferente, o próximo e o próprio. Somos como grandes ondas. Não precisamos ser, porém. O que se seguirá, então? Desbravar um mar de esperança ou celebrar o oceano que nos engolirá?

O que espero? Bom…

 

I. O Doutor

O Doutor também se questionava. Queria conhecer a Evolução. Mais, possibilitá-la. Teve de encarar a solidão de seu desejo. Os valores são exorbitantes, os processos desumanos e os resultados ameaçadores, pontuaram as universidades que visitou – e órgãos e ministérios e burocratas. Fortalezas mentais foram erguidas para conter os instintos prestes a acrescentar “você é um louco!” na lista.

O que universidades, órgãos, ministérios e burocratas não se atentaram é que os argumentos para minar o Doutor (especialmente o omisso) eram os elementos combustíveis que se prendia para fazer sua ciência acontecer. E aconteceu. Uma noite de outono, vida surgiu. Era perfeito? Era brilhante? Como era, afinal? O Doutor queria saber.

A Evolução estava aos olhos do Doutor. Olhos, a Evolução não os tinha. Olho apenas. Era gigante pela própria natureza, belo, forte, impávido colosso. O Doutor o mirou, mas nunca conheceu a Evolução. Nada vira. No olho, encontrou apenas a insignificância de sua existência diante da imensidão do desconhecido. Palavras grandes e vazias, nada mais. Sentia que a qualquer momento seria engolido.

Um segundo e o Doutor não celebrou.

 

II. O Humano

Uma semana e a Cidade mudou. Casas haviam, moradores não; transportes existiam, mas não chegavam a ponto algum; tecnologias operavam e nada desempenhavam; vidas ali circulavam, não humanas, porém. O Dia do Julgamento não durou mil anos. Em seis dias, o gênesis estava estabelecido. No sétimo, não descansou. A Evolução tinha pressa. Era Viral. Eficaz. Próspera. A Cidade e a Evolução. Era tudo lá em cima.

Lá em baixo, o Homem. Os Cidadãos não foram (todos) mortos. Ou foram. Ou já estavam. Depende o que se considera vivo. Os sobreviventes reuniam-se a sete mil pés do solo. A distância até o inferno, calcularam os Cidadãos que ali perambulavam. Meu filho precisa de medicamentos!, implorava a Mãe. Preciso comer mais do que uma porção de grãos por dia!, reclamava o Jovem. Não posso dormir nesse chão disforme! Quando esse pesadelo vai acabar?!, questionava a Senhora. Crápulas! Devem estar em camas macias, enquanto aqui sofremos!, rosnava o Senhor em apoio. Vocês deixaram meu filho morrer! Com uma boca a menos, vocês comem melhor!, acusava o Pai.

Em meio a tantos pontos de exclamação, não enxergavam os de interrogação, obstruídos pelas reticências grafadas nas expressões da Líder e do Exército (Diabo e Legião, aos olhos dos Cidadãos); já encaravam um temor maior que o próprio olhar da Evolução: as sombras do fracasso. Cada investida a superfície, configurava mais corpos, menos esperanças. Mães, Jovens, Senhoras, Senhores e Pais não perceberam – ou não quiseram enxergar: o filho da Médica precisava de medicamentos. Os Soldados comiam apenas uma porção de grãos por dia. A Ministra dormia nas pedras. A Líder sequer dormia. E Eu, o General, direcionava minha refeição a minha filha. Os Cidadãos não perceberam – ou não quiseram enxergar: éramos Humanos.

Por sermos Humanos (e só por isso), estávamos ali.

 

III. A Evolução

Aqui estamos, pois somos humanos. Não só por isso, somos grandes ondas. Não precisamos ser, porém. Ondas não sabem que morrerão, nós sabemos. Ondas não temem, nós sim. Somos como grandes ondas, mas não admitimos; acreditamos ser, no entanto, ases do baralho. E somos. Ases de um castelo de cartas prestes a desmoronar com o menor assopro; medo. Ondas não demandam provações, propriedades, adjetivos. A Evolução também não.

A Evolução prova-se a evolução na Praia. É onda e não é. A vida ali surge, não há conflitos, une o diferente, o próximo e o próprio. Livres dos perigos, temores e ruínas. Entre a Evolução e Eu não há ameaças. Tocamos os dedos, como Deus e Adão, E.T. e Elliot. Não somos estranhos, conheço-a. Sei que não precisa ser melhor ou única. A Evolução apenas aceita, convive, vive, vive, vive…

A alvorada é tardia. O Sol começa a nos felicitar com sua vivacidade laranja, mas viemos para celebrar as sombras crescentes no horizonte. Grandes ondas. Desejar minha própria falha, fraude e morte, é contranatural? Não me importa. Quero-as. Anseio a antinatureza, ser anti-humano. Melhor, não quero nada, além de nada querer. Sem ondas, sem fins… Em vão. Falho em não falhar. Saco a Evolução do mar de esperança e disparo-a ao oceano que nos engolirá. Enquanto nossos dedos, nossos olhos e nossos nós dançavam em harmonia, o mar exibe grandes ondas, prestes a nos abocanhar.

Escolhi a sobrevida sobre a vida. E por uma escolha tão medíocre (humana) serei Herói. Sou uma grande onda. Vejo a vida surgir, mas com a fartura de um segundo, derrubo o que fora construído, coloco pontos finais nas histórias iniciadas e deixo apenas ruínas para contá-las. Somos como grandes ondas. Não precisamos ser, porém.

O que espero? Que apenas aceitem, convivam, vivam, vivam, vivam…

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