Sou um homem-javali. Sou animal. Não tenho atrativos, mas tampouco regressão. Acho que sofro uma maldição. Nada importa, porém. A história não concerne a mim e não cabem meus aspectos por ora.

Quero contar-te a lenda de Eliot, o Herói!

***

O cheiro de merda era acachapante. Se dissessem-lhe que um animal carniceiro acabara de defecar, a negação não seria imediata. O fedor somado a dor de cabeça e o azucrim agudo semelhante a de um abutre-cinza d’A Floresta da Carniça, faziam a nuca de Eliot se ouriçar. O arrepio não fora aprazível como o que sentira há pouco, quando banhou-se pela primeira vez com uma mulher, a Ruiva. Respirava com dificuldades, sentia um peso em seu peito. Parecia manter sete ou oito… não, dez quilos a mais sobre seu dorso. O escuro, a pressão, o distúrbio, não imaginava que sentiria-se assim após…

AI, MERDA!

Gritou. A penumbra turva tomou o espaço da plena escuridão de seus olhos; Eliot os abriu. Um abutre-cinza d’A Floresta da Carniça de dez quilos acabara de bicar seu nariz. O momento seguinte resume-se uma coreografia desvirtuada de qualquer graciosidade estrelada pelo ser estúpido e o abutre, que faria inveja a Isaac, o bobo do rei Rúbio. A ave esvoaça, finalmente, para além da visão de Eliot. Não era nenhuma tarefa excepcional para a rapina, dado o tom breado da noite n’A Floresta da Carniça e a vista ainda “sonolenta” e “turva” de nosso herói. Heróis também podem beber, de acordo? Fora a primeira noite de beberrança de Eliot.  Primeiro coito, primeira dose, primeiro porre, primeira ressaca.  Uma noite de excessos. Uma noite a celebrar, a se lembrar.

Nada disso o fez herói.

Um herói é feito de provações e eis o primeiro desafio de Eliot: pôr-se de pé. O oponente: a gravidade. Sua bravura e vontade são postas a prova contra ela. Levanta, mas o tempo e o esforço investido não são compensados, fazendo-o cair de bunda no instante seguinte. Mas heróis são feitos da persistência e, numa segunda tentativa, o tombo é eminente mais uma vez. Na terceira, porém, ele consegue. Sua cabeça girava como um moinho frouxo. Era leve, flutuava. O jarro de olho-de-rato era uma desventura para o paladar, mas seu efeito era dos bons. Eliot se movia, andava, dançava, pulava como há tempos não fazia. Não sentia seu corpo tão suave e harmonioso desde que começara seu treinamento para a guarda real e precisava andar com sua montante pesada de aço nobre o tempo todo. Sua montante. Sua montante.

ONDE ESTÁ MINHA MONTANTE?!?!?!, pôs-se aos ouvidos d’A Floresta. Nenhuma resposta. Sua montante. Não estava ali. PELOS DEUSES! SIR WILLIAM VAI ME MATAR!, gritava para ninguém além das folhas secas d’A Carniça, que, em descortesia, não o acudiram. N’O Javali! Deve estar lá. Os Bichos. Malditos!, concluiu.

O Javali, à época não era O Javali. Não havia razões para sê-lo. Eu não era o dono. O dono era apenas um homem-homem, corpo de homem, cabeça de homem. O nome do lugar não importava, pois digo-lhe, Eliot iniciou o primeiro dos trinta verões em Mitos Javalinos.

Não se chamava O Homem, caso se pergunte.

O instinto heróico de Eliot mandou-o a’O Javali. Deveria retornar, enfrentar os Bichos e recuperar sua valiosa espada, a alma do cavaleiro. E foi o que fez!, a exceção de não saber o caminho até o estabelecimento e, portanto, não o fez. Mirou o céu, contemplando a posição das estrelas e a sombra na lua para nortear seu caminho. O retraimento d’A Carniça em nada impedia a visão celestial de Eliot. O cintilar dos astros o passava a sensação de observar o mar sereno refletindo a beleza da noite, porém acima de sua cabeça. Tons excelsos em uma noite de excessos; cogitou que este efeito era defeito. Estava bêbado, concluiu. Uma lástima, concluiu também, é que o herói fazia a mínima ciência de navegação pelos astros. A plenitude daquele panorama estrelado, significou apenas a dimensão de sua tolice.

Eliot se fodera e sabia disso. Sua cabeça girava, eram muitos pensares para uma mente palerma. Se sentia como os Bichos. Não. Ele apenas não controlava sua tentação em compreender enquanto ébrio. Os Bichos eram apenas estúpidos. Pensamentos e mais pensamentos. Como chegarei n’O Javali?. O moinho frouxo de sua cabeça acabara de receber uma ventania. Se não parasse, iria vomitar. Não era um grande contratempo, até lembrar que o que voltaria a sua boca era o dissabor daquele vinho mequetrefe – e ainda mais impraticável após encontrar as refeições diurnas. Dito e rato. Maldito olho-de-rato!

Vomitou.

Nem as formigas almejavam aquele ícor. Sem cerimônias, elas desviaram sua trilha constante da golfada de Eliot. Peço vossos perdões, formigas…, disse Eliot em sussurro. Repensava sua situação deplorável, estava em recusa. Depois aceitação. Perdão?

Perdão? Formigas? Formigas? Formigas! Sim, formigas! Formigas-de-sangue! Trabalhavam para os bichos! Levantou e seguiu-as.

Eliot sempre achou insetos fascinantes; em oposição a humanos. Formigas-de-sangue detectam impurezas no sangue de animais e plantas, absorvem-nas e retornam o sangue filtrado aos seus donos. Uma cura criada pela natureza para coevoluir com a natureza; em oposição aos humanos.

Humanos são invejosos; em oposição aos insetos. Dobromil Greenwood fora um dos mais ciumentos que pisara nessas terras. Não aceitava a pertinência dos insetos sobre ele e usou estes bichos para criar seus bichos: os Bichos, humanos-insetos. E conseguiu. Seu maior anseio era criar humanos finalmente relevantes. E falhou. Um tolo. Há impossibilidades até para a alquimia ancestral, a qual Dobromil era de fato perito. Não era em humanos, porém. Os Bichos começaram a usar de suas especialidades insetívoras para escalar seu poderio pelo reino. Mas eram estúpidos; em oposição aos insetos. Nada mais fizeram além de empestear. Eram arruaceiros que usam os insetos para comércio ilegal.

Até a chegada de Eliot, o Herói.

E ele chegara.

Estava à frente d’O Javali, graças a trilha das formigas. Os Bichos ainda estavam lá. Malditos, haviam o embriagado e roubado sua espada. Era mais que certo. Entrou. Os bardos pararam de imediato sua performance e todos lançaram olhares de medo e suspeita a Eliot.

Não. Não aconteceu assim. Mas digo-lhe que daria um clima a narrativa. Vou me concentrar nas verdades, contudo.

Ele entrou e ninguém fez a mínima menção. O Javali estava movimentado, mas não se compara ao sucesso sob minha direção. Não tome o dia de hoje como exemplo. Eliot não fizera cerimônia para ir direto à mesa dos Bichos, pois logo que adentrara, avistara sua arma no chão ao lado da mesa. Estavam em seis, pois formavam um sexteto e, portanto, não havia motivos para estarem em qualquer outro número.  Se em algum momento você olhou para minha face javalina com repulsa; e eu sei que o fez; mais de uma vez; treze vezes; quatorze agora; quero que faça o exercício de compreender os Bichos diante dos seguintes acontecimentos.

Verde tinha uma feição caricata. Era simpático, se não engraçado, com seus olhos esbugalhados e corpo esguio, apesar de esverdeado. Mas não se engane, nenhum dos Bichos jamais fora uma boa companhia. Verde comia apenas plantas e, como bem sabe, não subsiste confiança em alguém com tamanha falta de decoro e caráter. Rejeitar um bife de auroque-de-três-chifres? Imagine! E foi Verde, o primeiro alvo de Eliot quando retomou a espada dos Bichos distraídos com a baderna. Seu corpo papelório foi facilmente fatiado pelo primeiro movimento da montante cujo peso deveria ser o mesmo de Verde, em dobro.

Após o alerta do ataque, os Bichos se puseram em combate. Eliot sem demoras virou-se para seu segundo alvo, Lumena. Um equívoco do herói. Lumena não chocava pela monstruosidade, mas pela incompreensão desta. Sua pele negra misteriosa como sombras da noite, era a prova de luz. O fenômeno era atestado por seus olhos verdes fluorescentes que não permitiam qualquer clareza além dos próprios. Estes mesmos olhos, porém, cegaram Eliot com seu resplendor repentino antes da montante ser fincada em Lumena.

A partir daqui, a luta nada mais foi do que movimentos imprecisos e desesperados de Eliot. Nosso herói era um herói, mas não era completo. Sua audição não era das mais confiantes e ainda menos depois de um porre de olho-de-rato. O desespero tomou conta, no entanto não abandonara o combate. Souda era um alvo fácil, pois não fechava a matraca e Eliot conseguiu identificar sua posição. O que está fazendo, seu idiota?! Ora, devolva essa espada aqui e vai-se d’O Javali! Este lugar é nosso. Você não é bem-vindo. Vá logo. Vá!. Souda era excessivamente comunicativa. E libertina. … Ou fique e vá para o meu quarto, bonitão. É o terceiro à direita, no andar de cima! Vou te esperar lá. Seus olhos eram vermelhos muito separados, boca fina com dentes afiados e tortos, quatro braços e o pior de tudo: barba!… Não me pergunte como, mas costumava ter sucesso em suas investidas lascivas. Talvez seus braços sobressalentes permitiam uma pegada notória. Ou apenas era boa de papo, dado que era quem liderava as formigas-de-sangue. Mas tinha barba!, devo reiterar. E tomou-lhe uma espadada.

Gonit avançou. Era gêmeo de Verde, mas ao contrário do irmão, comia apenas carne. Algo a se respeitar. Não era dos mais simpáticos, porém. Era de poucos amigos e bem isolado. Agia como sombra de suas vítimas, silencioso, próximo.  Era bem semelhante a Verde, a exceção de suas mãos inexistentes. Em lugar, duas foices tão finas e afiadas que eram imperceptíveis em visão frontal, tornando-o ainda mais furtivo. Mas não fazia diferença, já que Eliot nada enxergava naquele momento, o que fez com que Gonit perdesse sua principal vantagem e mostrasse que suas habilidades em luta eram deploráveis quando suas investidas não eram covardes. A plateia involuntária nas demais mesas da estalagem trocaram o pavor da ação por risos, dada a comicidade dos movimentos de Gonit. Que logo fora retalhado.

Mama fora a primeira que não passou vergonha em combate. Digo, isso é um tanto relativo. Mama era uma mãe exemplar. Jamais deixara seus filhos passarem fome. Adoravam carne humana. Sua pele era amarelada, mas não como os povos do leste, lembrava frutas cítricas apodrecidas, posso dizer. Tinha duas características peculiares em relação aos outros Bichos: asas saíam das axilas e um ferrão venenoso saía do… bom, você sabe. E por suas especificidades, protagonizou uma cena que não se vê todo dia: levantou vôo e mirou seu traseiro na face de Eliot. Dada a velocidade da cena, porém, esquecera o essencial: exprimir seu ferrão para fora do… bom, você sabe. A picada com a ponta do ferrão na maçã do rosto de Eliot foi eminente, mas não era o que o incomodava naquele momento, de certo. Sua visão começava a retornar. E que momento mais inoportuno para se enxergar… Mama era mãe de muitos!

Eliot desvencilhou-se em desespero daquele horror, atirando Mama no chão e fincando a montante em seu alvo. Finalmente, Carapaça, o líder dos Bichos. Era o mais estúpido deles. Se você achava um absurdo Gonit e Mama comerem humanos, imagine Carapaça, o comedor de bosta humana. Era gordo e grande, possuía uma armadura natural, daí seu nome. Escolhido por si mesmo. A carapaça de Carapaça cobria todo seu corpo, menos os braços e pernas, que usava em combate. Esse era o líder dos Bichos. Tire sua impressões.

O herói começara a sentir os efeitos do veneno de Mama. Carapaça avançou com toda sua corpulência e reflexos lentos e teve seus membros logo arrancados pela lâmina do herói. Os olhos de Eliot, porém, começaram a lacrimejar, suas vias respiratórias ardiam e sua garganta fechou. Tentou atacar Carapaça, mas sem sucesso, estava enfraquecido. Sua montante golpeia palerma na carapaça de Carapaça e se quebra… fora sua última memória.

 

O cheiro de merda era acachapante. Se dissessem-lhe que um animal carniceiro acabara de defecar, a negação não seria imediata. O fedor somado a dor de cabeça e o azucrim agudo semelhante a de um abutre-cinza d’A Floresta da Carniça, faziam a nuca de Eliot se ouriçar. O arrepio não fora aprazível como o que sentira à pouco, quando banhou-se pela primeira vez com uma mulher, a Ruiva. Respirava com dificuldades, sentia um peso em seu peito. Parecia manter sete ou oito… não, dez quilos a mais sobre seu dorso. O escuro, a pressão, o distúrbio, não imaginava que sentiria-se assim após…

AI, MERDA!

Grunhiu. A penumbra turva tomou o espaço da plena escuridão de seus olhos; Eliot os abriu. Um abutre-cinza d’A Floresta da Carniça de dez quilos acabara de bicar seu focinho.

Eliot levantou, viu um riacho próximo e quando se olhou, viu sua face transformada em um javali. O desespero fora eminente, mas não duradouro. Manteve sua sanidade e voltou ao reino. Sir William logo o destituiu da cavalaria. Lógico, onde se vira um cavaleiro que perdera sua montante, que a quebrara e que, ainda, era um homem-javali. Pois, caso não saiba, atente-se: javalis não montam cavalos.

Sem nada a ganhar, tampouco a perder, voltara a estalagem. Os Bichos lá estavam. Fora um sonho? Não pode ser. Era agora um javali! Botou a mão no bolso e tudo fez sentido: fora picado por Mama, envenenado, tornou-se um homem-javali, mas roubou os Bichos neste tempo. Nada fez sentido. Havia matado os Bichos! Eram imortais? Não importava, pois eis, então, o ato mais heróico jamais proferido nestes reinos, Eliot entrou novamente no Javali.

Não fora a mesa dos Bichos dessa vez, mas ao taberneiro. Comprou O Javali com o saco cheio de moedas de ouro que encontrara no bolso, renomeou-o e proibiu os Bichos no estabelecimento. Eles se recusaram a sair, chamou a cavalaria real, Sir William, inclusive, e os Bichos foram capturados e condenados.

Fim.

***

Que história mais imbecil!

Proferiu o moleque. Dizia-se um escritor a procura de uma grande história e contei-lhe a maior, a minha. Mas percebo que nada mais ansiava que exibir sua alfabetização.

“Não, você é imbecil, pirralho! Eu sou Eliot!”

“Isso eu entendi, javali… Você é Eliot, o Covarde!”

“O Herói!”

“O Covarde!”

“O Herói!”

“O Covarde!”

“O Herói!”

“O Covarde! Essa história não faz o menor sentido! Como virou um javali com a picada de uma vespa?!”

“O Herói! Não sou um javali de verdade, pirralho! Sou alérgico a vespas! Minha face está inchada!”

“Inchada até um javali?!?!”

“É uma alergia forte.”

“Que dura décadas?!”

“É uma alergia crônica!”

“Tem pelo menos uma dúzia de fiapos soltos neste conto enganoso!”

“A vida é assim, garoto!”

“Isso não faz sentido algum! És um herói mais fajuto que o vinho que regurgitou após sua beberrança!”

Ele esperneia, levanta e vai-se embora, enquanto dedico palavras de entusiasmo e avidez a sua mãe e jovem irmã.

Maldito olho-de-rato! Tinha de lembrá-lo. O pequeno olho boiando dentro da garrafa. Tirei-o do inventário, assim que O Javali tornou-se O Javali.

***

Enquanto me livrava das garrafas imundas daquele vinho, o dono anterior se despediu, felicitando nossa recente negociação. Antes de sua retirada, perguntei-lhe:

“Como estão aqui ainda, os Bichos? Eu os matei. Lembro disso.”

“Matar?! Você bebeu demais, banhou-se com Souda, a puta das barbas ruivas, vendeu sua montante de aço nobre por um alto valor, pois alegou que acordar com os galos para aprimorar sua esgrima não lhe felicitava. Comprou a cabeça de javali da mesa d’Os Bichos, pois o gafanhoto fazia escândalo para todos pedirem uma salada ou comer apenas a maçã à boca do animal. Vestiu-a e disse que ia a Sir William, contar-lhe que sua espada fora roubada, quebrada e que virara um homem-javali.”

“Eu… banhei-me com Souda?!”

“E meteu-lhe a boca nas partes de Mama. Um ato heróico, diria.”

Retirei a cabeça do javali.

Vomitei.

Maldito olho-de-rato!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s