Não olhe por cima de seus ombros.
Não cometa esse erro. Olhei apenas uma vez para saber que não devia ter o feito. Não havia música, apenas medo.

Nunca me senti tão sozinha quanto naquele dia.

***

Faziam quatro anos que não ouvia aquela sinfonia. Não era agridoce, apenas amarga. Minha irmã e eu ouvíamos todos os dias. Era a música do casal. Composta há vinte anos. O regente com vinte e três, a solista, apenas doze. O troféu daquele primeiro ato veio em nove meses: eu. A família da solista decidiu que aquela era a única carreira possível, pois não traria mais benefícios para casa após sua estreia; teve, então, que casar com seu regente. Muitos atos mais aconteceram, mas sempre a mesma música. Dois anos depois, mais um prêmio: minha irmã. Mais um ano, meu irmão. Este, porém, nunca teve seu lugar na estante; foi quebrado ainda na confecção, quando, no sexto mês de gestação, a solista é levada a afonia durante a regência.

Tudo piorava quando no prelúdio era evidente que o regente mal conseguia encontrar o andamento. Entrava cambaleante, sem compasso. Sons de urros guturais, sobrepostos por agudos desafinados dos vidros estilhaçados e mesclados aos estrondos dos murros nas superfícies de madeira e concreto, resultavam numa sinfonia nada sinfônica. Disfônica. Polifônica.

Uma ópera composta por seu fantasma.

***

Não olhe por cima dos seus ombros. Pois lá estará a assombração.

A solista sempre encerrava o espetáculo com essas palavras. Também foram as últimas ditas a mim, na cama do hospital após um hiato de duas semanas. Ela havia olhado para trás na última apresentação. Com quatro costelas quebradas, coluna fraturada, hemorragia estomacal e músculo cardíaco prensado pela caixa toráxica, não conseguiria mais solar. Não queria mais. Nunca quis. Pediu-me para encerrar sua carreira. Desliguei a máquina e seu coração perdeu o compasso. Não queria ser responsável por sua morte, claro, mas por sua liberdade.

***

O regente não cancelou a turnê e logo obteve uma nova solista, o troféu mais belo da estante: minha irmã. Dizem que o show tem que continuar. Mas para quem?

Minha irmã não ouvira o epitáfio da mãe. Talvez por isso não o pôs em prática quando deveria. Talvez só não se identificava com a carreira. Foi afastada do cargo – permanentemente – logo no primeiro ato: ela olhou.

Dessa vez, porém, gravei o ato, mesmo sendo proibido filmar. O espetáculo foi cancelado e o regente foi para um novo palco, onde virou solista de mil regentes. Carandiru, Pavilhão 4. Não virei solista. Não desse fantasma da ópera.

***

Quatro anos de liberdade.

Não representavam sequer um quinto do que vivi em uma casa mal assombrada, mas era mais que o suficiente para conhecer algo novo: harmonia.

Minha vida poderia ser guiada por aflição, desgraça e amargura, mas os adjetivos que escolhi para o meu caminho foram liberdade, felicidade e punk.

“Você vê o copo meio cheio… sua alma é indestrutível! Queria ter esse vigor espiritual.”, disse uma amiga, quando terminei a história naquela noite. Era uma das noites que nos platonamos e epicuramos, depois de uma combinação pontual de ervas e álcoois.

“Não importa o quanto tem no copo, mas sim seu peso e quanto tempo o segura. Não tive chance de largar por muito tempo…”, respondo enquanto admiro a dose em minha mão. Pensava o quanto este copo era o certo; o quanto ele se adequava aos meus dedos, aos meus lábios, ao meu corpo. “Não. Não me permiti largar. O que poderia ser um copo de whisky como esse, tornou-se um galão de sangue.”

Fomos para o palco. Eu era vocalista das Phantom Killers. A música é imaterial, porém tem DNA. Digo, define nosso DNA. O Punk pesava menos que uma pena, enquanto uma orquestra me fazia sentir Atlas, carregando todo o mundo às costas. A música clássica forma correntes. Feitas a mão, impecáveis, feitas com do mais límpido metal, mas ainda correntes; o punk as destrói. Um ode à liberdade, à emancipação, ao fim do castigo, mas também do crime. À extinção do preconceito e, portanto, orgulho.

Don’t look back over your shoulder,
Never make this mistake,
‘Cause If you look,
You’ll see a scoundrel’s smile face.

Who looks, does only once,
If could go back, It would never do,
Soon regrets what it did,
And nevermore find the lull

Don’t look back over your shoulder,
Don’t face the abandon,
‘Cause if you look,
There will be a fucking phantom.

A phantom in the attic
There’s a phantom in the attic

A phantom in the attic
There’s a phantom in the attic

(Kill!)
The phantom!
(Meet!)
The freedom!

Naquela noite, cantei. Cantei. Cantei muito. Cantei o mais alto que pude. Cantei. As palavras foram as mais claras possíveis. Não importou. Naquela noite, todos ouviram, mas poucos escutaram. Quando percebi, pensei em parar… como se tivesse escolha.

***

A noite nunca acaba depois de um show. A anarquia não pode ser só cantada, deve ser mostrada, ser sentida e deve apenas ser. Eu sou. Sou a anarquia. Entre o anoitecer e a alvorada, entre vampiros e filósofos e serpentes e artistas e fantasmas, eu vivo. Meus olhos se encontram rapidamente com outros. Olhos que não deveriam estar ali; não pertenciam a uma criatura da noite.

Olhos acessíveis, comuns e, portanto, misteriosos. Aproximo-me, canto-lhe.

No one knows what it’s like,
To be the bad man, to be the sad man,
Behind blue eyes.”

“O que?”, ele pergunta.

“Você não é daqui mesmo. O que faz aqui? Você não pertence a esse mundo… O seu olhar me amedronta.”

“O seu me dá segurança.”

“O que faz aqui?”

“Apenas conhecendo.”

“Você não é uma das criaturas da noite.”

“Não, mas sempre me disseram que há trevas em mim”.

Não consigo conter o escárnio.

“E o que faz da vida, ó ser cheio de trevas?”

“Nada de mais… sou apenas um homem.”

“Exatamente. Este não é o seu lugar.”

“Leve-me para conhecer o meu lugar, então.”, diz me estendendo uma bebida.

Pego a bebida, tomo um gole.

“Hum… não…”, desdenho e volto para a pista.

Não demora muito para o ar puro da liberdade dar lugar para a opressão da luz do sol. Vou para casa. Não faço ideia do caminho, mas vou. Percebo minha visão ficando turva. Meu fluxo de pensamento não funciona mais direito. Meus sentidos estão confusos, parece que a dias não durmo. Apesar da alvorada, parece que estou no alto da noite na floresta mais densa imaginável. Desmaio.

***

“Não olhe por cima dos seus ombros. Pois, acreditando ou não, quando olhar, a assombração lá estará.”, diz minha mãe antes de dormir para sempre.

Acordo. É um sótão? Sinto um peso sobre mim, percebo movimentos constantes contra meus quadris, meus músculos em constante movimentos sistólicos e diastólicos a contragosto doem.

Olho por cima dos meus ombros. Apenas vi os olhos. Banais, porém fantasmagóricos. Tento me desvencilhar, sair dali. Tarde de mais. Olhei por cima dos meus ombros. Vi o sorriso do canalha que apertou o meu pescoço e pressionou minha cabeça contra o travesseiro.

“Estas são minhas trevas…”, diz calmamente.

“Por que…?!”, pergunto. Ele entumece os lábios com a língua.

“Porque você é livre.”

Não aqui. Não em um sótão. Sempre haverão fantasmas no sótão.

Apago.

***

Quando acordei, não era mais a mesma. Apenas eu, meu sangue, minhas lágrimas e minha dor. Naquela noite. Naquela noite cometi o mesmo erro de minha mãe e irmã. Eu mesma não ouvi o que cantei. Olhei para trás.

Naquela noite, virei o fantasma. Não dos que vivem em mansões, mas dos que vivem em óperas; não dos que dormem nos cemitérios, mas dos que dormem nas calçadas. Não os de almas desencarnadas, mas os de carnes desalmadas.

Sem caminhos, destino, escolha, porquês. Não sei o porquê de estar aqui hoje. Mas estou. Estou no quarto do meu regente. Ele dorme o mais tranquilo dos sonos. Do tipo que nunca tive. É invejável. Não há trevas nele.

Me aproximo. Faço pressão sobre o seu corpo, um movimento constante sobre seus quadris. Ele começa a acordar.

“Não olhe por cima de seus ombros,
Acreditando ou não,
Se olhar,
Lá estará a assombração.”

Canto. Ele não me escuta. Novamente. E, então, ele olha por cima de seus ombros. A trilha que toma conta da cena não tinha nada de erudita, nem de punk. Eram apenas gritos de terror e desespero. Isso pois roubei a alma do regente: sua batuta. Ninguém nunca mais vai solar nessa ópera.

Boo!

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