Encontro-me mais uma vez na mesma irresistível reflexão, enquanto as cores complementares dançam no céu ao amanhecer: “E se Deus existisse? E se não?”

Sei que essa pergunta não é razoável, tampouco sincera; Ele existe. Como conceito, pelo menos. Do tipo improvável e absurdo, porém crível. Pensável, logo existente. Algo como o racialismo, a reorientação sexual… ou o amor. Com a diferença de ser benéfico. Como conceito, pelo menos. Porém, nasci desprovido de fé. Infelizmente.

Não é ironia. Talvez o ceticismo seja uma grande falha na humanidade. Pois ignora a possibilidade quaisquer certezas, mas também não se rende ao absolutismo do desconhecido. Uma fissura na Criação? E cá estou eu fazendo de novo: negando a perfeição, o conceito. Bom, nunca importou. Não importará agora.

Tic, tac, tic, tac, tic…

Hora 0: Kairós

Não anda mais, o tempo. Não anda. Como? Kairós? Acho que sim. Kairós. Na filosofia grega, é o momento oportuno, o tempo sem medida. A tal da “Hora H”, talvez. Diferente de Chronos, o tempo linear e contínuo. No cristianismo, Kairós é a eternidade, o “Tempo de Deus” e Chronos o “Tempo do Homem”.

E, claro, Kairós também é um álbum do Sepultura.

Gosto de pensar em Chronos como o tempo em que vivemos e agimos. Em que somos escravos na labuta cotidiana. Já Kairós, o tempo da reflexão, do aprendizado, da filosofia. Quando você repensa suas ações, valores, erros, seu Chronos. Olhares ao redor com quem posso me comunicar… alguém? Não. Uma luz começa a se expandir diante de cada par de olhos no momento em que Chronos parou. Estou em Kairós agora. Em todos os sentidos.

“Now we trespass the line of time
Going back but I´m right here, now and then, all done
KAIROS!”

Que música! Que momento! Quantas das quase 8 bilhões de pessoas na Terra viveram essa feliz coincidência? “Coincidência”?! Se foi apenas isso, Deus não só é imperfeito, mas preguiçoso.

Todos estão aqui. Posso vê-los agora que o show-off acabou. Vidas começam a ser refletidas; cada ato, cada oportunidade é repensada. Ninguém mais cogita transformar a humanidade, mas em mudar a si próprio.

“Será que estamos mortos?”

A pergunta está estampada nas expressões e na postura de muitos. Pergunta errada, porém. Quando a inteligência falta, o diabo fala. E aqui não há diabo. Estamos vivos para testemunhar a graça e a salvação.

Testemunhar a chegada Dele.

Deus.

Hora 1: Revelação

Prazer, sou Deus.

O tom é sarcástico, divertido e cansado, como um personagem escrito por Douglas Adams. Parece ter calculado esse roteiro para eu utilizar esses três adjetivos, apenas pela obsessão à triplicidade.

“Decepcionante, eu sei. Eu sou tão… humano, não é?! O que você esperava? Imagem e semelhança, lembra?”

Um rapaz franzino senta no asfalto com as pernas cruzadas e mãos juntas e referencia a luz a sua frente. Outro Deus? Ele percebe minha intriga e responde a pergunta que não fiz.

“O Bollywood ali está vendo um elefante com uma coroa. Sempre adorei os hindus. O tal do sexo tântrico, já experimentou?! São muito criativos.”

Exato. Todos estão vendo Deus, mas cada pessoa vê o seu conceito Dele. Contemplando o garoto indiano, posso dizer que o invejo. Imagino que ver Ganesha é uma experiência que uma viagem à Disney World não vai me proporcionar.

Não vou me dar o trabalho de elaborar. Ele sabe o que não sei e quero saber, afinal: o que está acontecendo?

“O Apocalipse, é claro.”

Noto murmúrios e expressões desesperadas, temerosas e surpresas de pessoas ao redor. Três adjetivos, detesto isso. E não me encaixo em nenhum deles, por acaso.

“A galera não prestou muito atenção na parte do ‘não tenha medo…’, não sei porque vão a igreja.”

– Sabe sim. – minha voz está trepidando a cada sílaba. – Mas não precisa ler nada, além de um dicionário. O Apocalipse não é o fim do mundo… “Sou o Alfa e o Ômega”, revelação e abandono. Não me parece o fim da humanidade, mas o Seu.

Por que o sorriso? Ainda faz questão de exibir os dentes, mais amarelados, desalinhados e opacos do que eu esperava. Três, de novo. Mesmo sob defeitos, Ele esbanja vitória nessa expressão. Está se aproximando. Nossos rostos estão prestes a entrar em contato. Sou penetrado pelos olhos juvenis, porém sábios. Os lábios quase tocam os meus. O que está fazendo? Tenho a sensação de trocar arfadas entre nossos pulmões; o que era impossível, já que Ele não respira de fato. Não me demoro a associar seu perfume à lençóis recém-lavados, estendidos em um varal no quintal de uma pequena casa campestre francesa na qual estive aos quatorze. Ao mesmo tempo que me sinto angustiado, me sinto tentado, histérico.

Exato. É como o casebre. A sensação é a mesma daquela vez, a primeira vez. Com uma camponesa um ano mais velha, que morava na região. Cabelos dourados, bochechas rosadas com sardas discretas e olhos juvenis, porém sábios. Era judia. Me pergunto o que ela vê agora. Como é o Kairós judeu? Volto para o meu. Deus a minha frente. Não é ela, mas são seus olhos, há poucos milímetros dos meus.

Ainda existirá humanidade?

Sussurra.

Desaparece.

Tic tac.

Hora 2: Tripalium

O relógio voltou a trabalhar. Ainda é manhã.O que mudou? Nada mudou. Não se passou um segundo sequer, mas… Enfim, vou apenas continuar. Para a cafeteria. Já a considero meu escritório; um lugar que tem os três coeficientes que mantém viva a criatividade no século XXI: café, wi-fi e indie pop.

Nada mudou. Não nessas duas quadras que caminhei, não na cafeteria, aparentemente. Ah, outro fun fact no meu computador. Quando ligo, um documento já aberto, com o título provisório “Um minuto para o Reveillon”. Uma metáfora sobre a relação homem-tempo. Seria outro acaso ou o humor de um Deus ocioso? De qualquer forma, muito humano. Ou apenas eu, em toda minha insignificância, acho que sou mais importante para Ele… sou muito humano. Estou a um passo de acreditar que a posição das constelações quando nasci, mesmo não estando exatamente naquela posição, definem minha essência, baseado em porra nenhuma. Que horror!

Café. Preciso.

Lorena não está hoje? Não era folga dela… Ridículo. Sou um merda de um stalker vivendo uma transa platônica! Não valho um kitsch. Jamais admiti, nem a mim mesmo, que Lorena pela manhã era minha Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Minha Lolita. Porra nenhuma, só a acho gostosa mesmo. Mas, como Lolita, era menor de idade, parecia pura e eu queria tocá-la, sentí-la. “Queria”. Saí de casa querendo, contudo não quero mais. Ainda assim, a dúvida permanece: onde está Lorena? Ali.

Num canto acobertado pelas parafernálias fazedoras de café atrás do balcão, ela discute desinteressada com seu gerente, recusando-se a trabalhar. Não faz mais sentido para ela. Deus. Ela vem de uma família classe média alta, não tem porque trabalhar em uma cafeteria aos dezessete. Não por razões econômicas, pelo menos.

“Sirvam aos seus senhores de boa vontade, como servindo ao Senhor, e não aos homens, porque vocês sabem que o Senhor recompensará cada um pelo bem que praticar, seja escravo, seja livre.”

Diz a Bíblia. O Senhor, porém, cagou para a subserviência de Lorena.

Ela não vai me atender hoje. Quem me atende não me importa. Tudo bem, meu café importa. O café é meu pastor e nada me faltará. Lorena não, mas eu tenho que trabalhar. A cafeteria está calada; um silêncio ensurdecedor. Os clientes parecem refletir ou apenas matam o tempo… Tempo. Chronos. Depois de Kairós, Chronos perdeu o sex appeal. O ambiente não inspira. Nem expira. Ou eu que não?! Foda-se. Tenho que trabalhar. Trabalhar… tenho?!

“O trabalho liberta”. O partido nazista usou essa nos campos de concentração, enquanto escravizava, miserava e matava seus trabalhadores. Se algo de bom foi feito por Hitler, foi permitir que tal afirmação fosse desmentida, depois de desvirtuada de sua acepção. Tripalium, três madeiras; um instrumento de tortura, de crucificação. Trabalho é sofrimento, tortura, castigo. Quem diria? Quem não? Trabalho não recompensa, tampouco liberta.

Deus teria dito isso para Lorena? Ela abandona a cafeteria sem o uniforme. Era mais sexy com ele.

E quanto a mim? Estou aqui há uma hora e ainda não escrevi sequer uma palavra. Não trabalho por liberdade ou salvação, como Lô. Então, por que não estou trabalhando?

Por que trabalharia, afinal?

Hora 3: Fé

Tenho que me concentrar. Preciso escrever… por que não escrevo? A cadeira a minha frente é ocupada. Devo dizer “Obrigado, Senhor”? É ela.

– Aqui, de novo? – a primeira voz com energia que escuto hoje. Humana, pelo menos. É ela. Linda, como sempre. Beleza exótica no melhor sentido. Do tipo que sua aparência tem poder e liberdade, e ela não apenas sabe, como explora isso quando pode. Apesar da cara de poucos amigos, do humor ácido, da estima por cabelos platinados, piercings e tatuagens e amante das artes gráficas e músicas alternativas, ela sempre, sempre me vem com uma surpresa: pra começar, é muito religiosa e presente na igreja. Desbravadora, líder de cultos jovens, monitora voluntária em programas sociais da comunidade, ativista dos direitos de minorias dentro do cristianismo e a lista continua.

Lembro que quando a conheci, tive diferentes impressões. Os estereótipos e modismos que construímos, determinam mais do que deveriam o apreço que temos por outrem. É natural, mas isso não é desculpa. Pois, por sorte – ou graças a Deus –, somos seres contranaturais… Qual será a boa de hoje?

– Não deveria estar na igreja a essa hora? – Eu deveria desconversar e me atentar ao trabalho, mas ela foi a minha última namorada. E não consigo esquecê-la. E ela sempre consegue me fazer jogar o jogo dela, em todo caso.

– Deveria?!

– Não?!

– Eu ia à igreja pela Fé. Não tenho mais.

Hein?! Será que ela não O viu? A Fé agora existe como existiu em Abraão, Moisés, Maomé. Deus existe, de fato. Vimos! Não, ela está fazendo de novo; nunca concordamos em nada e nossas contradições sempre me irritam. Esse foi o motivo do fim da relação. Sinto falta, mas só sentimos falta daquilo que não temos. Nada inédito.

– A Fé é uma grande falha. Ela determina uma série de certezas e não nos permite duvidar e entender outras possibilidades e nos desenvolver. Infelizmente, nasci repleta dela. – Ela viu. E sabe que penso o contrário. É de propósito! – E qual é mesmo a definição de Fé, senhor escritor?

– Crença incondicional a uma hipótese… – Ela conseguiu, de novo. Concordamos, finalmente. O furor do segundo anterior deu lugar a puro tesão. Não havia notado mudanças até então, mas é óbvio! Não há mais espaço para hipóteses. Fé e ceticismo não existem mais. Só existe a verdade absoluta, a lei. Tudo mudou.

Ainda existirá humanidade?

Sei porque concordei com ela. Sei porque tremo, porque salivo, porque suo.

Sei porque a beijo.

Hora 4: Id

Os clientes e funcionários não faziam caso da falta de pudor enquanto entrelaçamos nossos braços e pernas e reconhecemos nossos corpos com o tato, na mesa – de trabalho – da cafeteria. Nem eu. Nem ela. Qual o valor do pecado se Deus nos abandonou, afinal? Não fomos de uma sociedade sexualmente orwelliana a uma pauliceia desvairada dentro de algumas horas, mas a cotação do pecado está bem baixa em relação ao dólar. Aliás, como está o dólar quando “in God we can’t trust anymore”? Caralho, que me importa agora? As carícias migram para amassos, depois arranhões e, por fim, posse. Somos um. Não vamos nos desnudar e começar o coito público, mas é o que o meu corpo quer, por certo.

– Venha… – ela sussurra no meu ouvido em um suspiro. Ela me ergue com a facilidade que faria a uma pena. Apenas vou, claro. Ela me leva banheiro da cafeteria. Isso é novo para mim, mas o que não é nesse dia?

A maior anormalidade é a normalidade dessa cena. Todos testemunharam nosso despudor na mesa, o volume extra em minhas calças e a mancha escura nos shorts dela. Estamos numa cafeteria, caralho! Mas foda-se. Foda-se tudo. Ninguém deu a mínima para a dúplice afobação em direção ao banheiro.

Tudo isso é muito kafkiano. Mal consigo conceber. Nunca me imaginei numa situação dessas… Porra nenhuma, já imaginei muito mais. Em muitos banhos. Mas esperava realizar?! Já ouvi marmanjos contando vantagem com histórias mais praticáveis que acreditei terem saídos de algum conto erótico meia boca.

O que estou pensando? Por que estou pensando? Estou tendo a melhor transa da minha vida! Talvez seja o momentum falando. Ou seria a adrenalina e a bravata desse contexto episódico? Talvez também por fazer já alguns meses que não atingia esse clímax acompanhado.

Ou não? O prazer, a libido, o desejo, a pulsão. Somos instruídos a controlar tudo isso para simular uma organização social que nunca tivemos e parecermos mais inteligentes perante as outras espécies… Que trouxice. O que nos dá prazer é inconsciente e instintivo, é o que desconhece lógica, ética, valores. É o que Freud chamou de id. É a liberdade, não o tabu.

Adão e Eva desconheciam a libido. Ao experimentá-las, foram punidos. Liberdade? Sem Deus qual o castigo para a liberdade? Não há conflitos: o id não é reprimido, a moral do superego não faz sentido sem a fé e, portanto, não se faz necessário a existência do ego. Tudo é id. E eu amo isso! Amo o Freud. Amo a foda.

Estou quase lá!

Ah!…


Continua em “O Bestiário: Vespertino

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