Damião não sabia lhe dizer quando a guerra havia começado.
Nas lembranças, somente o roxo arrependido, azul opaco, branco angustiado.

A irmã morta na cama;
O padrasto perplexo, em cana;
A mãe encontrada no banheiro, o frasco vazio na mão;
A avó não vê música, seu peito perde a percussão;
Ao avô sobrou apenas o pó. Demência, medo e solidão.

Damião estava em sua fortaleza, protegido por sua guarda pessoal.
Vestiu a sua armadura, colocou a máscara. Pronto e pontual.
Prestes a encarar seu pior inimigo. Seu nêmesis, seu apogeu…
Eu.

Encarava-me todos os dias, contudo Damião jamais me enfrentara.
Escondia suas verdades, medos e defeitos atrás de sua máscara.

Apenas eu o deveras conhecia.
Era isso o que temia.

A Máscara. Acurada, porém banal.
Nunca a tirava, era natural.
O duplex na zona sul da metrópole, era sua cidadela;
Sua esposa, ex-modelo e seus dois filhos, eram sua tutela;
Sua armadura feita de lã fria, moldada em terno Balmain;
E a máscara. Vestia a máscara do cidadão de bem.

Ela sempre cumpriu sua função.
Menos aqui. Eu, somente eu, posso ver através da simulação.
Posso ver através da máscara, da pele, carne, da assombração.
Vejo a alma de Damião.
Ele levanta os olhos, mas sei que não me vê.
Por trás da moda, sua alma culpada, covarde, é démodé.

Seu olhar distante tem asco.
Acha que sou seu carrasco.
Sempre a propor que o quero pôr em um cadafalso.
Enquanto apenas quero sua alforria; o seu senso era falso.

Clamo.
Conclamo.
Exclamo!

“Damião!”

“Ei! Olhe para mim, Damião!” 

“Tire essa máscara deplorável, Damião!”

“Ela vai cair e revelará a face do monstro, Damião!”

“Damião, tire a máscara, Damião!
Você é caricatura, é figura;
É sórdido e é fétido;
É pulha e é bulhufas;
É vil e é servil;
É indigente e é insuficiente;
É sujo e é caramujo.
É tição. Você é Damião!”

“Achas que tudo tens, mas o ter que te tens…”

Sua alma quer chorar, libertar-se da casca. Matar a dissimulação.
Damião, porém, não lhe dá ouvidos, não abraça a deserção.
Depois de nove mil novecentos e noventa e nove defrontamentos;
Depois de nove mil novecentos e noventa e nove escarmentos;
Depois de nove mil novecentos e noventa e nove sofrimentos;
Nada.

Damião continua atrás da máscara.

Damião ajeita o cabelo com as mãos uma última vez.
Trouxe até mim o alfinete dourado de sua gravata xadrez.
Ganho uma nova marca. Dez mil dias, dez mil cicatrizes.
Anexou a reluzente peça à gravata, tornando suas vestes felizes.

Então, desvencilhou-se de mim, seu reflexo no espelho. Foi trabalhar.
Como um cidadão de bem, jamais deixaria seu disfarce falhar.

Tudo muito diferente de Damião de dez mil dias atrás.

Que sufocou sua irmã com o travesseiro, numa brincadeira singela;
Que culpou seu padrasto, jogando uma vida inocente numa cela;
Que motivou a morte da mãe e da mãe dela;
Que tornou seu avô, demente, só, vazio, ocioso, Zé Ruela.

Que todos que o amavam, pagassem aquela máscara que comprou.
Qual o custo da covardia e irresponsabilidade? Damião nunca questionou.

Sem família, laços ou histórias. Carregou consigo apenas um espelho.
Era centenário, mofado. Damião adorava se admirar quando um fedelho.
Encarar seu reflexo era o momento mais honesto do dia.
Quando a profundidade d’alma aparecia.

Há dez mil dias, ele o marca sempre ao amanhecer.
Prometeu a si: faria isso até ter hombridade para reconhecer.
Ser tão sincero ao mundo quanto ao espelho, a mim.
Quando o fizesse, prometeu-me que me destruiria, me poria fim.

Dez mil dias, me pergunto o que quebrará de antemão:
O espelho ou você, Damião?

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