Ai!, um tropeço da roda num buraco, faz minha cabeça se chocar contra o acrílico e acordei do sono mais intimista que já tive em um ônibus. Suricateio, mirando tudo ao meu redor. Meus sentidos ainda imprecisos, reforçados pela minha testa latejando pós pancada. Tento me localizar nesse novo universo que despertei. Que idiota! Onde mais estaria? No ônibus. Como sempre. Com outras seis figuras. Figuras repetidas. Isso me era confortável.

E estranho.

Rafaela também estava aqui. É minha vizinha. Havia se mudado há uns dois anos e logo lá me apaixonei. Amo-a. Desejo-a. Vejo-a e meus lábios tremulam, ressecam. Por que? Não deveria!… Claro, ninguém sabia. Ela nem desconfiava. Graças a Deus! Imagine se meus pais soubessem! Agora devem estar fazendo suas liturgias diárias. Jamais aceitariam um relacionamento lésbico na família. Isso é o de menos. Já sou praticamente uma trintona. Não deveria nem morar mais com eles. O problema é que Deus sabe. Me desculpe, Senhor! Alguns amigos meus já disseram que Deus não julga sua sexualidade. E tento acreditar nisso, mas o problema não é esse! Me desculpe, meu Pai! Sei que o Senhor, meus amigos, todos jamais hão de louvar um relacionamento com dezesseis anos de diferença. Não pelos 16. Ou 29. Mas os 13.

Preciso deixar esse pecado morrer dentro de mim. Preciso!… Mas não hoje. Amanhã, com certeza. Recostei-me no assento, tento voltar ao meu cochilo e resgatar o meu sonho carnal interrompido protagonizado por ela. Rafaela. Rafa. Ela.

***

Não vou chorar! Sou homem. Sou grande! Adultos não choram quando batem a cabeça! Paloma não chorou! Fico de joelhos em cima do banco, colo a bochecha na janela. Não posso perder o moço do farol! Quero aprender a fazer os malabarismos que ele faz com fogo. São muito legais! Quero fazer aquilo quando crescer! Agora minha mãe não deixa. Por que crianças não podem jogar fogo pro alto?! Não é justo! Não posso cozinhar! Nem dirigir! Ser criança é muito chato…

A única coisa que posso fazer é ir pra escola, desde o ano passado… A escola é chata! Só tem criancinha lá. E só posso ir no ônibus sem minha mãe ou irmã, porque a Olívia também vai. Só porque ela é grande! Eu queria ter dezessete como ela… Mês que vem faço dez. Já vai ser unidade e dezena! Que nem adultos. Ela é mais legal que minha mãe e irmã, pelo menos… Não reclama. Odeio quando minha irmã reclama! Ela pode sair, ganha dinheiro, chegar tarde e não tem lição de casa! Como pode reclamar? Que chata!

Ah, o moço do farol! Tá chegando!… Para. Para. Para! Tá vermelho! Para! Ah, não… o ônibus não parou…

***

I love rock n’ roll
So put another dime in the jukebox, baby

Os sons vêm de todos os lados, a guitarra guia o curso do meu sangue até o coração que bate ritmado pela bateria e ferve com o brado aceso da multidão. Eu sou o epicentro de toda aquela dança de luzes, de cores, de sons, de ares. Foda! Gritam para minha música, gritam por mim, gritam meu nome: Rafaela! Rafaela! Eu sou Deus, sou a cura, sou o crime, sou o castigo, sou tudo, sou o Rock!

I love rock n’ roll
So come an’ take your time an’ dance with me

Puta que pariu maldito ônibus do caralho, desacelera essa merda! Sorvo minha própria saliva que se dissipou com a mesma intensidade do baque da minha bacia no banco depois que essa lata voou sobre uma lombada. Aquela aberração doente que paga de beata venderia a alma por um pouco desse cuspe. Aff, meu headphone caiu, machucou meu quadril, maldito lugar onde não se tem controle sobre a inércia, onde sou só carne, sou nada, sou defeito, sou um lixo que nem esse motorista fodeu toda minha vibe… Por que tenho de estar aqui com eles?! Odeio esse ônibus, odeio eles, bando de insuportáveis.

***

Quatro anos e nada… Não aguento mais. Cheguei tão bem aos trinta. Agora foi tudo pro inferno. Quatro anos atrás, recém-casado, minha filha estava pra nascer e eu já era um investigador de destaque dentro da Polícia Civil. Alguns amigos até me chamam de Bond. Bom, menos por méritos que pelo meu nome, Sete, mas tem o seu valor. Apesar que James Bond sempre foi um péssimo espião. E eu nem espião sou… Acho que é só o nome mesmo. Enfim, entrei nesse caso. Um maníaco sexual estava atacando naquela região. Sempre as mesmas vítimas: putas. Não demorei para descobrir que era um local com histórico de outros ataques uma década antes. O caso nunca foi encerrado. Tava fácil. Logo, cheguei num nome: Nino Albanio.

Era o principal suspeito das denúncias de dez anos atrás, mas foi absolvido pelo depoimento uma testemunha. A principal. A puta que engravidou. O DNA correspondia, mas no depoimento final, ela confirmou a alegação da defesa que o resultado foi forjado. Não foi. Ela jamais permitiu que um teste de DNA fosse feito. Por que? Por que? Foda-se. Cada um que lide com seus demônios. Semanas depois estava morta. Puta filha da puta! Mereceu! Por causa dela, estou há quatro anos morando nesse bairro nojento, seguindo esse maníaco. E nada. Ele nada faz. Mas dessa vez você não escapa, Nino. Não escapa. Não de mim. Dois assentos e um deslize seu é o quão perto eu tô de te pegar…

Não. Não aguento mais. Vou resolver agora! Levanto… mas a convulsão dentro desse coletivo me joga no meio do corredor. O que diabos esse motorista está fazendo?! Ponho-me de pé, vou até o motorista.

***

A má casa o filho parte. Liberdade, finalmente. Liberdade passageira. Vida passageira. Nesse ônibus, sou passageira. Sou liberdade. Liberdade, minha poesia. Com ela que vou sobreviver. Viver. Vivere parvo. Melhor que estes vizindários, sem visionários, apenas vitimários. De minhas ascendências herdo na pele reminiscências e da outrora outra, incumbências. Incumbência. Tinha nome. Chame-o Edu. Não Israel, não Estevão, ou coisa parecida. Era potência, não penitência. O que lhe energiza, Edu? Pare. Apenas pare. Adultizar não é isso.

De que reclamo? Prontifiquei-me a ajudar. A vida de uma geretriz dantes meretriz agora atriz não é inteligível para ele, para ela, para eles, para eu. Este, porém, seria meu último préstimo. Neste ônibus, não voltarei. Nesta vida, não viverei. Deixarei Edu na escola apenas uma vez mais. Mas não entrarei. E não voltarei. Em minha mochila, vestes barganharam o lugar dos cadernos; alimentos, das canetas. Apenas me vou. Vou-me por não gostar daqueles adjetivos. E é só o que encontro naquela casa. Sem poréns, apenas aqueles adjetivos. Todos eles. Todos em Shakespeare.

Canalhas, perfeitos em não verem seus defeitos, hipócritas, pastores de trapaças, patifes, cérebros esponjosos, mentes tão despovoadas quanto as próprias almas, arrogantes, estúpidos, covardes, indignos do ar que respiram, escravos da incompetência, idiotas, bestiais, vestidos com luxo para esconder seus eus maltrapilhos, marginais, criaturas, desocupados, desgraçados, renegados de dignidade, insignificantes, pequenos, não possíveis, não plausíveis. Não pai. Não mãe.

***

Gosto de estar aqui, com eles. Vou sentir falta disso. O ar aqui dentro é diferente. Tem gosto, tem cheiro, tem cor. Com eles, entendo como um cheiro pode ser macio. O cheiro, o gosto, o calor, o vento. Fora daqui, porém, mal consigo dormir. Não tenho conforto. Fazem dez anos que meu colchão é como uma cruz de madeira; meu travesseiro, uma coroa de espinhos. Preciso me entregar. Vou me entregar.

Sou um homem doente… Sou mau. Não tenho atrativos. De Nino, nada tenho além do nome. Nada de digno, nada de alegre, nada de nobre. Mamma ti voglio bene, mas não mereço esse lindo nome. Acho que sofro de algo. Não sofro. Não como quem fiz sofrer. Todas elas. Amei-as… ameia-as como o capeta ama as almas pecadoras. Nada de bom resta em mim. Só resta culpa, pois preciso; e arrependimento, pois é inevitável.

As lágrimas não pedem licença. Não mereço lamentações. Não mereço perdões. Apenas queimei pontes, nunca as construí. Nem com meu filho. Menino Edu. Tão lindo, tão maduro, tão saudável. Orgulho. Obrigado, meu filho. Com apenas nove anos já é muito mais homem que jamais fui. Oferece o amor que sua mãe merece. Pela mulher, não pelo pecado. É sangue do meu sangue, mas seu vermelho é inocente, enquanto o meu, perverso. Adeus, meu filho. E obrigado. Obrigado.

“Seu Alfonso! Pode parar perto da delegacia, por favor?!”

***

***

Alfonso, o motorista do coletivo, não respondeu. Sequer ouvira. Logo em seguida, o ônibus colidiu a mais de 100km/h com a fachada de um condomínio nas tantas da madrugada. Ninguém ouviu ou viu. Diferente de um estampido menos urbano, mais visceral. Este fez o porteiro, os seguranças e alguns moradores se apressarem para o estacionamento e descobrir um homem que caiu do oitavo andar. O laudo oficial confirmara na manhã seguinte: Alfonso se suicidou. Na carta dizia não conseguir mais lidar com seus passageiros. Ao lado da carta, cartelas de medicamentos para a psicose de Rafaela, o TDAH de Edu, a bipolaridade de Olívia, o alcoolismo de Sete, a depressão de Nino, a narcolepsia de Paloma, além para a esquizofrenia de Alfonso, que continuava a dirigir o ônibus há quase cinco anos. O mesmo. Itinerante, itinerário, itinerância. Sempre o mesmo.

Paloma,
Edu,
Rafaela,
Sete,
Olívia,
Nino,
Alfonso.

Vidas, pessoas, personalidades. Cada sertão com suas veredas. Cada alma com seu inferno. De sete em um para nada em coisa alguma. Compartilhavam o ônibus, a lata, a casca, o corpo. Tudo e todos eros e psique. Ninguém chegou ao seu destino.

Destino?

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