Cortei a carne. Era de primeira, suculenta e deliciosa. Meu marido merecia. Ele é um bom homem. Mas andava diferente no último ano, estressado desde que começou no novo trabalho. Por culpa de seu chefe, um homem horrendo, grosseiro, covarde, ingrato, ranzinza. Vivia o humilhando, como se nele, descontasse suas frustrações de outrora. Fazia-o de gato-sapato. Só porque podia. Sempre injusto. Por nada. “Aquele canalha deve odiar sua vida, afinal de contas, sua esposa parece um verme de bigodes!”, disse um dia meu marido. Eu esbocei um sorriso e ele se irritou. Não era para ter graça. O tema era sua indignação e não o buço avantajado da coroca. O sorriso foi tirado do meu rosto… por dias. Por isso, paguei apenas metade da conta para poder comprar essa carne.

Assei a carne. Cozinhei o arroz, temperei o feijão, salpiquei as folhas. O cheiro estava ótimo. Meu marido merecia. Por conta do estresse, estava perdendo os cabelos, sua pele estava craquelada, a cada dia acumulava uma nova ruga, disputando espaço com veias que saltavam em sua testa; estava até ficando corcunda. Envelhecido. Carrancudo. O tempo saltara 10 anos em 10 meses. Não importava o quanto eu o consolava, tentava ajudá-lo. Ele se tornou um caldeirão borbulhante a ponto de explodir.

Girei o botão do rádio. Com toques leves, tentei sintonizar o noticiário que estava prestes a começar. Era a hora que ele chegava. Consegui. Quase sem ruídos. Meu marido… ele merecia. Merecia mais. A nova televisão em cores ajudava a acalmá-lo. A única coisa boa do seu trabalho era o melhor salário… mas não pagava o preço de seu tormento e sua cólera. Esta, aliás, responsável por ter quebrado o televisor, quando um dia tentei consolá-lo, justamente falando que seu novo emprego pelo menos o permitiu comprar o primeiro aparelho colorido do bairro. “Cale a boca mulher! Não preciso dessa merda!”, vociferou, logo antes de impulsionar a televisão ao chão e arrancar seu cabo, transformando-o em um chicote.

Servi a carne. A mesa de jantar estava linda. Seu prato era uma fotografia harmônica. O protagonista, o apetitoso bife, ganhava destaque do branco e preto complementares do arroz e feijão ao fundo. Em contraste, as vívidas cores da salada. Ao lado, a cachaça. Não queria que ele bebesse. Torcia para que não bebesse mais. Queria que se sentisse bem, queria o fazer sentir bem, mas a bebida no jantar jamais ajudava. Tampouco se eu a tirasse.

Assusto-me com um estampido trovejante Era a porta sendo arregaçada. Como um touro enfurecido cobiçando a muleta oscilante, meu marido entra sem cerimônias. Atira seu chapéu e sua mala em qualquer canto e se adianta até a mesa, jogando-se na cadeira.

“Boa noite, querido… Está tudo bem?”. Questiono, ponderando cada palavra. Sem resposta. Ele apenas afunda sua carranca no prato e dá uma, duas, três abocanhadas desmedidas, sem nem ao menos respirar.

Mastiga. Para. Bufa. Pensa. “Como não estou engasgado?!”, era o que parecia refletir. Era a carne, claro. Carne de primeira. Derretia na boca. Acho que consegui, amansei, agradei. Que bom. Meu querido marido, ele merecia. Bufa novamente.

“Que carne é essa, mulher?”, pergunta, enquanto ruminava a carne. Sorrio.

“Você gostou, querido? É de primeira!”, respondo. Por um momento, o mundo em minhas costas se transformasse em uma pena de galinha. Não muito mais que um momento.

“De primeira?! Com que dinheiro comprou isso?”

“Da conta… paguei só metade.”

Bufa mais alto. O impossível acontece: sua feição fica ainda mais tenebrosa, escura. Ele levanta. Parecia mais corcunda, maior. Quase posso sentir o cheiro de enxofre queimado. Tento manter o sorriso. Falho. Minha mente trouxe de imediato as noites apavoradas em claro que passei quando a mamãe me ninava com o “Boi da cara preta”. Sinto espamos no canto dos meus lábios, meus olhos marejam, meus joelhos ameaçam padecer.

“E-está… Está gostosa, não está?! Quer mais, não quer?!”, volto-me a cozinha em passos apressados, lutando contra o entorpecimento de todo meu o corpo desistente.

Peguei a carne. Fechei a geladeira, coloquei sobre a tábua, peguei a faca. Os bifes saem deformados. Tremo. Mal enxergo. Estraguei a carne… Era carne de primeira! Não acredito!

Ouço o arraste e o tombo da cadeira. Era meu marido levantando em um solavanco. Passos marcados, gradualmente mais fortes vindos em direção a cozinha. Param na entrada da cozinha, às minhas costas. Bufa.

“Você… não pagou a conta… pra comprar a porra de uma carne?!”

Não consigo mais. Fingir. Responder. Tolerar. Aquele peso. Era insuportável. Não consigo mais seguir em frente. As lágrimas descem, gotejam na carne. Não! Estou estragando a carne!

“Responda, mulher idiota!”, grita.

Não respondo, apenas consinto em murmúrios. Bufa. De novo.

“SUA PUTA ATREVIDA!!!! POR ISSO NÃO SE DEIXA DINHEIRO EM MÃO DE MULHER!!!”

O metal tilinta, o couro rasteja como uma cobra. Eu conhecia aquele som. Ele investe em minha direção, ergue o cinto como um chicote, mira minha nuca.

Cortei a carne. Era patife, velhaca, seca, flácida… Era podre. O sangue espirrou e o corpo de meu marido tombou, logo depois de sua cabeça rolar pelo chão frio da cozinha. Eu merecia. A carne não era de primeira, mas tinha gosto de alívio e cheiro de liberdade.

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