Inúmeras histórias para contar com aquele carro, mas João não esperava que aquela, naquele dia acabaria daquela forma. Ele acordara para mais um dia de trabalho. Ainda que, à primeira vista, ao olhar pela janela do seu quarto, o dia de fato não se mostrava. Mas isso não era problema para João. Sobretudo, depois de olhar e dar bom dia em pensamento para seu carro, que mesmo no breu daquela fria e nebulosa madrugada, se destacava. João fazia questão de estacioná-lo sob o poste de luz mais próximo de sua casa. Assim, era como seu carro fosse uma estrela com os holofotes apontados.

João não demorou para se por em pé e cumprir sua rotina matinal antes de partir. Terminara levantando a franja de sua esposa e dando um suave beijo em sua testa antes de partir. Ela permanecia dormindo, mas esboçava um leve sorriso. Vivia afirmando que disputava o amor de seu marido com aquele carro. E perdia. Não importava o quanto João negasse e refutasse essa comparação descabida, ela não se convencia. Porque nem João se convencia. Ele de fato amava mais aquele carro. Muito mais histórias para contar; conheceu-o muito antes de sua esposa.

Também com um beijo na testa, despediu-se de seu casal de filhos. Desejou bom sonhos em sussurro e partiu. Enfim, encontra seu carro, seu amigo pela primeira vez naquele dia, recebendo-o com um sorriso a fim de começar mais um dia com ele. Mais um dia de boas histórias, assim acreditava.

Aquele carro estava em sua via há mais de 40 anos. João o adquiriu em sua adolescência. Anos 70, muitas coisas eram diferentes. Começou a trabalhar com ele logo em seguida. Aquele carro que, à época, já era velho, sujo, surrado, remendado. João o pintou, trocou suas rodas, sua carcaça, trocou o forro e decorou a seu modo. E de novo. Repetiu este processo muitas vezes nas últimas décadas. Ainda assim, isso nunca impediu que o carro continuasse a ser apenas uma velharia feita de gambiarras. Não para João. Para ele, aquele carro era mais belo que qualquer outro. Um carro zero é zero de alma, zero de histórias, costumava dizer. Nenhum carro poderia levá-lo aonde esse carro o levou. Sobretudo, hoje.

Já na rua a quase uma hora, a penumbra do amanhecer já começava a dar suas caras sobrepondo a escuridão da noite. A meia-luz natural já era o suficiente para algo chamar a atenção de João. A solidão de João naquela rua era rompida por uma pessoa. João avistou apenas a silhueta do sujeito há meio quarteirão de distância. Aparentava ser um homem alto, de boné e uma grossa jaqueta. Mas o que de fato chamara a atenção de João, era sua atitude: levantara alguns sacos de lixo aglomerados no poste, jogara um saco ali no meio e começara a cobrir com os demais; notou o carro de João se aproximando; correu, entrando na viela mais próxima.

João cogitou o chamar, mas era tarde. Então, parou seu carro onde estavam os sacos. Aquele rapaz fez uma verdadeira bagunça ali. João saiu de seu carro e foi até os sacos de lixo. Decidiu os rearranjar da melhor forma possível, afinal, sabia que as vidas que lixeiros e catadores levam já são demasiada difíceis. João não demorou para identificar o saco que o rapaz havia jogado. Sentiu nele um cheiro atípico, mesmo para o lixo. Abriu. Recuou. Cambaleou. Eis uma história que jamais pensara em contar em suas peripécias com o seu carro.

Apressou-se. Levou aquele saco para seu carro, deixou-o na parte traseira e acelerou. Para onde? Não sabia. Tentava organizar uma busca em sua mente desvairada pelo que acabara de presenciar, procurando a delegacia mais próxima. Conhecia a região. Lembrou.

Entre todas as suas memórias com seu carro, não imaginava ter aquela, não queria ter. Nada que João vivera, havia sido tão marcante quanto o que acontecia naquele momento. As histórias que tanto contava, tanto se orgulhava, pareciam pinturas desbotadas num depósito, enquanto que aquele dia era como obras conceituais desagradáveis de cores super-saturadas, mas que são cimentadas em seu subconsciente e nunca mais te abandonam.

Se alguém o pedisse para contar uma de suas aventuras agora, João não conseguiria transmitir o fascínio com que costumava as contar. Não pareciam mais tão bons romances em sua mente. Nem os primeiros anos com seu carro, quando encontrou uma carteira na rua e nela tinha uma foto e documento, que ele reconheceu ser um morador de rua que costumava cumprimentar e oferecer seu café da manhã, que levava em seu carro. José. A carteira era de sua irmã, Maria. Conseguiu a localizar, devolver a carteira e sua família. Na década de 80, seu carro o levou a casa de José Abelardo Barbosa de Medeiros, o próprio Chacrinha. Seu grande ídolo. Infelizmente, não o conheceu pessoalmente, mas voltou para casa com uma de suas brilhosas e icônicas cartolas vermelhas. Uma história que nunca deixou de contar e recontar nos vespertinos sábados, no horário do Cassino do Chacrinha, mesmo após seu falecimento. Assim como sempre explana sua satisfação ao ver o sorriso no rosto de dezenas de crianças da comunidade onde vive, quando ele traz brinquedos e presentes no Natal e dia das crianças no seu carro e distribui, desde a década de 90. Nessa época, já com os seus 40 e poucos e barbas grisalhas preenchidas, ficou conhecido como Papai João.

Tantas histórias junto com seu carro. Todas, pequenas em detalhes, mas únicas em alegria e felicidade. João nunca ganhara na loteria, nunca tivera uma herança, um grande emprego, nunca sequer ganhou uma rifa, mas, ainda assim, se sentia o homem mais sortudo do mundo, abençoado por Deus. Não hoje. O que acontecia naquele momento era uma desventura que o fazia questionar suas felicidades. Era funesto. Tenebroso. Sentia-se traído pelo seu carro. Por que o levou para aquela situação? Depois de tudo. De tanto tempo. Não importava. Não agora. Acelerou seu carro o máximo que pôde – o que não era ridiculamente pouco – até chegar na DP.

“Opa! Espere aí, senhor! O que quer aqui?”, perguntou um policial em seu guichê na entrada da delegacia, no momento em que João parou o carro bruscamente em frente a cancela.

“Preciso falar com o delegado! Eu vi… vi uma coisa!”, respondeu João. Parecia recém resgatado de um afogamento. Respiração carregada, arfava de cansaço. O peso e as manchas presentes em sua camiseta, mais os olhos quase fora de órbita expressos na sua face engordurada e cabelos desgrenhados denunciavam sua aflição para o policial.

“O senhor não pode entrar com esse carro aqui.”

“Mas…”

Por mais perturbado que João estava, havia notado enquanto chegava à delegacia, outro carro entrando no estacionamento. E não era de um funcionário. Não importava naquele momento. Não tinha tempo para indagar o policial. Apenas consentiu. Em meio minuto retornou e estacionou seu carro do outro lado da rua, apanhou o dito saco atrás e retornou à entrada da delegacia. Olhou inquieto para o policial no guichê, esperando sua concessão. Dada, apesar do claro aborrecimento do guarda.

Não importa. João se apressa para entrar, precisa falar com o delegado. Ninguém no balcão. Policiais vem e vão, rabeiam o olhar para João tentando chamar a atenção deles com o saco na mão. Nada. A cena se repete por pelo menos alguns minutos e uma dúzia de policiais o ignorando. Finalmente, uma oficial resolve parar. Revira os olhos, respira fundo e se dirige a ele.

“O que posso ajudar, senhor?”

João não só mais parecia ter visto um fantasma como se assemelhava a um naquele momento. Seu estado de choque só alavancava.

“Aconteceu… aconteceu algo terrível! Alguém precisa… precisa fazer…”

Ele abre o saco para a moça. Ela olha. Imagine como se duas fotos, dois quadros em sequência, as feições dela vão de impaciência a terror absoluto.

“PARADO!”

Em um instante, ela saca seu revólver, aponta para João. Os outros policiais se sobressaltam ao ouvir o grito e copiam seu gesto. João, ainda mais confuso que eles, luta contra o tremor que se apoderou de seu corpo e ergue suas mãos. O saco cai. Parecia uma boneca, exceto por não se notar nada de plástico ou borracha em sua pele macia e gangrena, em seus olhos grandes e pálidos.

João olha para todos os lados, mas nada vê. Tenta se defender, mas de sua boca só saem grunhidos e murmúrios incompreensíveis. Um trio de oficiais avançam, derrubam-no, algemam-no. Gritos. Ódio. Julgamento.

Momentos depois João é jogado na cela mais próxima, como aquele saco foi jogado por aquele homem na fria madrugada de São Paulo. Estatela no chão, sangra seu supercílio. Ele chora. Não pela dor. Não pela humilhação. Não por aquela criança. Talvez por tudo isso. Mas chora pelo seu carro. Seu querido amigo.

Pois, sem compreender nada dos últimos relances de sua vida, só uma coisa sabia: ele, João, aquele catador, não encontraria novamente seu carrinho. Nunca mais contaria uma nova história achada no lixo.

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