Um chá de aniversário

20Contos capa Um chá de aniversário

“Ordeno que me passe o açúcar”, mandou o rei. Seu súdito sacudiu a cabeça em negação. O rei estava muito mais perto do açucareiro que ele. Ele levantou, e levou o açúcar ao rei, acompanhado de resmungos.

“Um cérebro do tamanho de um planeta, para quê?”, o súdito perguntou e ele mesmo respondeu, “Cumprir ordens ridículas.”

“Não são ridículas, Marvin”, advertiu o rei, “são ordens razoáveis.”

“Razoáveis…”, desprezou Marvin. Ele voltou ao seu lugar.

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O Bestiário: Noturno

20Contos capa Bestiário Noturno

(Continuação de “O Bestiário: Vespertino“)

Hora 9: Anima

O que sobrou?

— Pff, Sai! — Ótimo, minha boca cheia de pelo (e não por uma boa causa). — Quanto tempo eu dormi, gato?

Para onde as formigas foram? Só o gato, eu, os mortos e o silêncio. Os mortos e o silêncio. No parque não há túmulos. Não estou no parque. Por que?

— Você me trouxe aqui, bicho?

— Deus apareceu pra você também?

— Xô!

— O que tá olhando?

— Ei, gato… o que sobrou?

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Aline na Avenida das Paulistas (Amostra)

20 Contos Capa Aline na Avenida das Paulistas

1 – O mar literário das Consolações

 

Conta-se que havia uma São Paulo lá embaixo. Era conhecida como Sampa, famosa pela Avenida das Paulistas. Suja, caótica, lotada, barulhenta, repleta de diversões e diversidades. Era como a São Paulo de cima. Se fosse do avesso. Esta história não foi pescada no ar. Estava no livro que Aline lia no ônibus até alguns minutos atrás, quando o fiscal de sorriso verde (Aline confundia as cores dos ditos populares, mas não fazia caso; tudo era cinza na São Paulo de cima) arrancou-o de sua mão e colocou outro, só de figuras e diálogos. “E de que serve um livro”, pensou ela, “somente com figuras e diálogos?”

A menina ficou observando a paisagem, sem paisagem para observar: a São Paulo de cima era quadrada e cinza em espaço, tempo, enredo e personagens. Nem seu apelido, Pauliceia, tinha o mesmo charme. “Palavra dura, sem sabor”, pensava Aline enquanto degustava, em murmúrios, o termo “Sampa”. Pela janela, seus olhos seguiram um homem que mirava seu relógio a cada três pernadas e esbaforava nas outras duas. O homem não a fascinava por sua pressa, mas pelas vestes: coelho, de terno azul. Os passos urgentes eram dados com patas brancas no lugar dos sapatos, pelos vazavam entre as pregas e botões do terno azul e, do topo da cabeça, subiam grandes orelhas felpudas. O homem-coelho entrou em uma estação de metrô que Aline nunca tinha visto: cores vibrantes, dentro e fora, destacando-se de todo o cinza.

Aline desceu apressada do ônibus e seguiu o coelho.


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Leite derramado etc. e tal

20 Contos Capa conto Leite derramado etc. e tal

Tu qué sabê como cheguei aqui?! Comecei intregano leite, mas tava treta.

A guerra era zuada pra todo mundo. Só o Pinha e o Ferrero tava de boa. O Pinha tirava uma grana nos vídeo que punha na internet xingano pá carai. O Ferrero tava lá na cadera dele, mandano e dismandano. Os meu perrengue, todo mundo tava cagano, mas deixá de bebê o leite, ninguém quiria. E ’inda bem, senão tava fudida. Mas, porra… dá um trampo federal levá leite no calcanha no meio dessas buraquera. Tudo por causa dessas ideia errada do Pinha.

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A, desculpe-me

20 Contos Capa poema A desculpe-me

A, desculpe-me. Diz família brasileira, qual tradição?

A de índio, que era poligâmica em maioria, sem laços nem veneração?
A de exilado, que estuprava índias e escravas fora de sua nação?
A de oligarca, que firmava poderio com povo em privação?

A, desculpe-me. Diz família bíblica, qual considerou?

A de Eva, que com seu primeiro filho, assassino do próximo procriou?
A de Abraão, que com irmã própria de meio sangue desposou?
A de Salomão, que exatamente mil mulheres colecionou?

A, desculpe-me. Diz família abençoada, qual inferno?

A de vítima, que dormia com seu algoz pela desonra ao nome paterno?
A de general, que esposa e filhos são medalhas da farda de terno?
A de intolerante, que já não reina lares do Brasil moderno?

A, desculpe-me. Diz família brasileira, qual tradição?

Tempos e costumes

20 Contos capa O Tempora O mores

Delegarza “inova” mais uma vez e dessa vez com a presença do próprio Altíssimo

 

Franz Delegarza voltou aos Trending mundiais, mas por um motivo diferente nesta semana. O cantor de chamar atenção por se promover shows em desuso há quase um século, unplugged  – concerto em que os instrumentos e o palco não estão conectados em rede com nenhum dispositivo e o público precisa comparecer fisicamente ao local para assistir. Em seu último acústico, Delegarza desligou uma Bizz, Inteligência Artificial produtora de eventos pervasivos interativos, pois seria desnecessário ao espetáculo. Contudo, o SIAC (Sindicato das Inteligências Artificiais Civis) denunciou Delegarza por homicídio doloso. E mais uma vez o cantor promove um evento que não se tinha registros a décadas: seu julgamento já dura seis dias e será julgado em terceira instância. E pelo próprio Altíssimo.

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Qual a cor da goiaba?

Capa conto Qual a cor da goiaba?

A sorte estava lançada. Não havia nenhum show de fogos, desfile ou declaração oficial para indicar o início da disputa; dedos foram erguidos e todos sabiam que havia começado. Em seguida, mãos recolhidas e um silêncio repleto de tensão e hostilidade tomou o palco da batalha. O clima perseverou por apenas um minuto. Para os espectadores no entorno, o mais longo da vida, enquanto para cinco dos seis combatentes preferiam que aquele minuto não acabasse tão cedo. Para a última, durou o que tinha de durar. Ela quebrara o silêncio com um berro estridente, semelhante a um gato no telhado tentando se dar bem com a siamesa da casa ao lado no meio da madrugada.

Apenas uma palavra que sequer era em português e alguns, quiçá ela própria, sabiam seu significado. Ainda assim, o urro incomodou. Os outros cinco largaram todas as interjeições que não diriam defronte seus pais e jogaram as canetas em punho para qualquer lado. O embate estava longe de acabar, porém. O próximo passo era julgamento e avaliação. E eis o pulo do gato (no telhado ou não): neste embate, o júri são os próprios competidores. Em sequência, cada um começa a pronunciar seus escritos. Lançavam aquela espreitadela desconfiada quando outro dizia ter pensado o mesmo, mas só murmuravam resmungos quando nem o que propor tinham.

– Cor: goiaba – expôs a soprano que esgoelara o “Stop!” minutos antes.

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More Than One More Light

Chester Bennington cantando para o público.

A tribute to Chester Charles Bennington.

Why, is my question. It’s like a Carousel, he answers me. I didn’t want an answer. He goes on: It’s a proper Technique, a cycle. It’s an end!, I protest, it isn’t a perfect cycle at all! It’s not, son. You need to see as a Step Up. His voice was calm and shouldn’t be. Please, stop. Stop talking. Give me space And One moment for my memories. Part Of Me was taken away today…

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O Bestiário: Vespertino

(Continuação de “O Bestiário: Matutino“)

Hora 5: Ágape

Até mais.

É sério? Ela simplesmente vai? Bom, nem quero que fique. Meu texto me espera. Meu café também. Deve ter esfriado, mas por um bom motivo. Foda!, literalmente. É gozado, nunca valorizei o sexo casual. Sem paixão, apenas me sinto compartilhando um momento egocêntrico de auto-prazer que não deveria ser compartilhado; um exibicionismo auto-vangloriado que não deveria ser exibido. Como a internet. Usei-a errada esse tempo todo. Ó meu Deus! (tenho plenos direitos a essa expressão agora), sou um conservador! Era, visto a última ida ao banheiro. Graças a Deus! (essa também).

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